Memorável: Senna

Ayrton Senna festejando uma de suas vitórias.

No dia 1º de Maio de 1994, o Brasil perdia um de seus maiores ídolos nacionais. A morte do piloto Ayrton Senna no GP de San Marino pegou toda a nação brasileira de surpresa e o luto tomou conta do país.

Há muito tempo que a tragetória de vida e carreira de Ayrton Senna flertava com o Cinema. Mas nunca falavam em um documentário… Antonio Banderas até chegou a passar um tempo com a família Senna para aprender um pouco sobre Ayrton e depois interpretá-lo no Cinema; mas o filme com Banderas não vingou, e eis que em 2010 o diretor Asif Kapadia foi convidado pelos produtores do filme para dirigir o documentário. Mas tinha um detalhe: Kapadia não sabia quase nada sobre a vida de Ayrton Senna. E isso é uma coisa ruim? E eu respondo com um sonoro “Não”. O fato de conhecer pouco Ayrton Senna foi um  dos motivos pelos quais os produtores escolheram Asif Kapadia para a Direção. Assim o diretor podia fazer um documentário de verdade, de maneira imparcial.

E Kapadia fez um ótimo trabalho. O início do filme é simplesmente espetacular. Aquelas imagens recuperadas do Senna com aquela trilha sonora ao fundo, aquela trilha que é meio funebre, meio melancólica, já coloca o público em um envolvimento enorme com a história.

Senna em um momento de concentração.

Mas o filme não fica só na parte triste. Uma das coisas que o filme trata de mostrar, é a parte humana de Senna. As expressões que ele faz quando acompanhamos os acidentes de Donelly, Barrichello e a morte de Roland Ratzenberger são de uma humanidade que não tem tamanho. Você percebe que quando ele vê as imagens, a pessoa que ele é, o Campeão, sai por um momento e vemos um ser humano, preocupado sim em vencer, mas acima de tudo: preocupado com os colegas.

Um dos maiores trunfos do documentário, é não querer transformar Ayrton Senna em um “Deus”. E isso é muito bem mostrado nas cenas sobre a rivalidade Senna x Prost. Em um ano, Prost causou um acidente que tiraria Senna da corrida, mas Senna voltou, venceu e os comissários tiraram a vitória de Senna por pressão de Prost. No outro ano, Senna deu o troco, tirou Prost da pista e foi campeão.

Uma das maiores rivalidades da Fórmula 1: Senna x Prost.

Ainda na rivalidade dos dois, em um GP de Mônaco em que Senna estava a 55 segundos na frente de Prost. A McLaren pediu para Senna reduzir o ritmo, mais ele não diminuiu e bateu e saiu da prova e Prost venceu. Após a corrida Prost disse: “Ele não queria vencer. Ele queria me humilhar”. As farpas entre os dois aumentaram no segundo ano em que trabalharam juntos, até que culminou com a saída de Prost da McLaren. Mas mesmo assim a rivalidade continuou.

A emoção também tem seu espaço no filme. E que parte magnífica é aquela que fala sobre a primeira vitória de Ayrton no GP do Brasil em 1991. E tinha que ser com emoção. Com apenas a 6ª marcha, Senna levou o carro até o final, na raça, na garra e com uma força de vontade enorme. Senna terminou o GP exausto. Demorou para sair do carro, andava devagar, os ombros doloridos, aliás, o corpo inteiro dolorido, tamanho foi o esforço para levar o carro até o final… e que bela cena, é ele chamando o pai dele pra dar um abraço: “Vem cá pai! Vem cá pai! Só encosta”.

Senna com a bandeira do Brasil no alto do pódio.

Humildade sempre foi uma marca de Ayrton. Logo após esse GP do Brasil, na entrevista ele disse ao povo brasileiro: “A gente foi, a gente conseguiu”. Ele sempre fez questão de demonstrar o orgulho que sentia do Brasil e do povo brasileiro. Senna sempre fazia de tudo para vencer, e venceu boa parte do que disputou. Mas ele não ficava se gabando das vitórias. Vencia, mas não ficava se mostrando.

Um detalhe do documentário, é que quando passa os GP’s, passa assim: 1984 – GP de Mônaco; 1988 – GP do Japão; 1991 – GP do Brasil… e você sabe que essa contagem vai parar em 1994…

Momentos antes do GP de San Marino.

E chega o GP de San Marino em 1994. Senna tenso, devido a várias coisas que vinham acontecendo na temporada. E pra aumentar a tensão, um grave acidente com Rubens Barrichello na sexta-feira nos treinos e a morte de Roland Ratzenberger no sábado no treino que valia a pole position, deixaram Senna, mais calado ainda, a tensão aumentando. Durante essas cenas, dele se preparando para o derradeiro GP, a irmã Viviane Senna disse que na manhã de sua morte, ele abriu a Bíblia em uma página e lá tinha uma passagem que dizia que “Deus ia dar o maior presente de todos os presentes. Que era ele mesmo”, essa era uma das características de Senna. Ele sempre falava de Deus, sempre fazia questão de enaltecer o Todo Poderoso.

A morte de Senna veio, e a reprodução das imagens no momento do acidente e durante o socorro são espetaculares. Eu me lembro que a corrida em que Senna morreu, eu estava assistindo, e lembro do impacto que o acidente foi para mim. Quando veio a notícia de sua morte depois de 13:00, confesso que não acreditava…

O final do filme Asif Kapadia faz uma das maiores cenas do cinema nos últimos tempos. Conforme familiares e colegas de Fórmula 1 vão chegando para ver o caixão, ele intercala com cenas de momentos alegres que Senna teve com essas pessoas. O que é, o pai dele chegando no caixão e mostra logo em seguida um abraço dos dois… demais!

Senna no alto do pódio depois de mais uma vitória.

E pra acabar com tudo e com todos, no final um repórter pergunta pra Senna qual foi o piloto que ele mais teve prazer em competir. Senna diz que foi com Fullerton, um piloto da época do Kart. E ele ainda diz que era porque lá era só pilotagem, só corrida e não tinha a politicagem (que nós sabemos que a Fórmula 1 tem aos montes), não tinha dinheiro envolvido, era só corrida. Um Tri Campeão de Fórmula 1, chegar e dizer que o grande prazer dele foi correr no Kart, só mostra o tipo de pessoa humilde e humana que foi Ayrton Senna.

Senna é um grande documentário, e uma justa homenagem a esse ídolo brasileiro que deixou muitas saudades, e sem ele às manhãs de domingo não são mais as mesmas.

Termino este post, com uma das frases marcantes de Ayrton Senna: “Seja você quem for, seja qual for a posição social que você tenha na vida, a mais alta ou a mais baixa, tenha sempre como meta muita força, muita determinação e sempre faça tudo com muito amor e com muita fé em Deus, que um dia você chega lá. De alguma maneira você chega lá.”

Senna: Nota: 10,0

Senna, 2010. Direção: Asif Kapadia. Com: Ayrton Senna, Alain Prost, Ron Dennis, Frank Williams, Rubens Barrichello, Damon Hill, Nelson Piquet, Jack Stweart. 105 Min. Documentário.

Evilmar S. de Almeida

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