Cinema: Mogli – O Menino Lobo

Mogli - O Menino Lobo

120 anos depois, “O Livro da Selva” (The Jungle Book originalmente), do visionário Rudyard Kipling, parece ter sobrevivido ao teste do tempo em cada linha da sua doce narrativa. Walt Disney era um admirador do trabalho de Kipling. Em uma entrevista concedida a rede americana de TV ABC em 1965, ele falou: “Vi uma poesia sem precedentes na obra de Rudyard Kipling. Se tiver que encerar minha carreira como animador, vai ser adaptando O Livro da Selva para o cinema. Meus artistas iriam fazer algo singular.” E foi justamente isso que aconteceu. Mogli: O Menino Lobo foi o décimo nono filme de animação dos estúdios Disney e foi lançado nos cinemas dos EUA em 18 de Outubro de 1967, sendo dirigido por Wolfgang Reitherman. E como o próprio Walt Disney tinha prenunciado, foi também o último filme produzido pelo mesmo, que faleceu durante a produção do longa.

A verdade é que Walt Disney conseguiu sim produzir uma obra de uma singularidade artística ímpar. De um lirismo pouco visto no cinema estadunidense da década de 1960. O longa animado de pouco mais de uma hora, é uma verdadeira exaltação introspectiva em traços não lineares. Uma contemplação sinfônica ao naturalismo artístico da animação.

Passados quase 50 anos, a empresa do rato tem a chance de expor tudo isso em uma adaptação live action. E de forma extraordinária o faz. Mas o diretor Jon Favreau deveria ter ouvido os conselhos da música do urso Baloo, que algum gênio verteu assim para o português: “Eu uso o necessário / Somente o necessário / O extraordinário é demais”. Música que em uma obra como Mogli: O Menino Lobo, ecoa como um hino.

Seu Mogli é uma belíssima façanha técnica que combina live-action, cenários fotorrealistas em computação gráfica e performance capture (ou “captura de desempenho”) aplicada a atores do calibre de Idris Elba (o tigre Shere Khan), Ben Kingsley (a pantera Bagheera), Bill Murray (o urso Baloo), Scarlett Johansson (a serpente Kaa), Lupita Nyong’o (a mãe lobo Raksha), Giancarlo Esposito (o pai lobo Akela) e Christopher Walken (o orangotango Rei Louie).

Mas Mogli: O Menino Lobo é curiosamente pobre em encanto e em emoção. Ingredientes que são fartamente encontrados na obra de 1967.

Essa crise de identidade sem tamanho entre a aventura e a fofura, e entre a fantasia e o realismo, é o aspecto que talvez mais gravemente prejudique Mogli. Os dois volumes de O Livro da Selva, que o inglês nascido na Índia Rudyard Kipling escreveu entre 1893 e 1895, são coletâneas de contos morais protagonizados por animais falantes e pensantes. Conforme o tom da época, têm mais aventura do que graça, e mais lei da selva, nua e crua, do que espírito de conciliação entre espécies. A Disney e Jon Favreau acharam que seria possível fundir esses aspectos divergentes entre os livros e o desenho de 1967. A mim parece um erro de origem. Primeiro, obriga a uma loooonga exposição sobre como Mogli foi parar na selva, por que Shere Khan o odeia, etc. etc. – visual realista pede lógica realista, raciocinaram os produtores. Segundo, causa uma série de pequenos surtos esquizofrênicos: a selva é a violência de Shere Khan, o carinho de Raksha ou o oportunismo boa-praça de Baloo? O roteiro sai pela tangente, optando por um inconvincente darwinismo adocicado. Por fim, animais de desenho, quando falam, não causam estranheza, porque seus traços foram antropomorfizados de forma a que isso pareça natural (e porque são desenho, que seu cérebro já decodifica imediatamente como um território em que tudo é possível). Já animais fotorrealistas e, vá lá, biorrealistas (quero dizer que eles não passaram por um salto evolutivo que justifique a aquisição de linguagem, como os primatas de Planeta dos Macacos), quando falam – é esquisito. Não tem jeito. Em vez de ouvir diálogos, o que eu ouvi, o tempo todo, foi a morte do diálogo – dublagem.

Nota 7

The Jungle Book, 2016. Direção: Jon Favreau. Com: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong’o, Scarlett Johansson, Christopher Walken. 105 Min. Aventura.

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