Cinema: Ave, César!

Ave Cesar

O que tem nessa cabeça? “Ave, César!” e o poder da história.

De inúmeras virtudes (e são muitas) que os bons filmes têm, poucas são as obras audiovisuais de mercado que atacam de frente a questão mais fascinante de todas as que o cinema pode propor: como nós, na plateia, vemos, compreendemos e adicionamos significado àquela sucessão de imagens em movimento? Que maravilhosa engenharia (ou arquitetura, para repetir um conceito coenesco) nos possibilita criar histórias a partir daquilo que vemos, e dar a essas histórias elementos de emoção, memória e até paixão que trazemos do fundo de nossa alma e colocamos, como uma oferenda a um deus antigo, no altar da tela?

Ave, César!/Hail, Caesar!, dos irmãos Coen, faz exatamente isso. Nem mais, nem menos.

A história é simples, se passa no lapso de um dia, no clima da paranoia anti-comunista da década de 1950, data em que a principal estrela dos estúdios Capitol Pictures, Baird Whitlock (George Clooney, que aqui está excepcional) – não tão bom ator assim –, é sequestrada bem no meio das filmagens da superprodução de época chamada… “Ave, César!”. Caberá ao leão-de-chácara da companhia, Edward Mannix (Josh Brolin) – cuja função é proteger os atores da empresa, desde fazer com que eles cumpram seus compromissos profissionais a abafar escândalos –, trazer o artista são e salvo de volta ao set no decurso deste dia terrível, horrível, espantoso e horroroso.

Na Hollywood de 2016, onde é impossível recusar um convite dos irmãos Coen, fica fácil encontrar nomes de peso no elenco formado apenas por estrelas. Que vai de Scarlett Johansson, Channing Tatum, passando por Tilda Swinton (essa última em uma participação memorável).

Muito embora Ave, César! possa ser um filme de narrativa bagunçada, ele pretende mostrar essa adorável bagunça de Hollywood que nós adoramos. É o inverso do francês O Artista, onde lá o pretendido era fazer uma carta de amor incondicional a Hollywood. Aqui os Coen preferem mergulhar na loucura de Hollywood com seus escândalos, egos e absurdos em geral.

A narrativa perde um pouco o fio da meada no final do segundo ato, dando um tom mais lento ao desenrolar de algumas histórias centrais. Mas longe de tirar o brilho do conjunto da obra.

E impressionante como Ave, César! traça um paralelo interessante e criativo entre o calvário e a indústria cinematográfica americana, sem abrir mão do bom humor.  É um filme que possui história para mais do que suas 1h40 de duração.

Se eu fosse fazer uma ressalva à tremenda viagem que é Ave, César! eu diria isso – que é fácil se perder nele. Mas considerando o nível de idiotice da maioria dos filmes este ano, estou achando ótimo.

É muito importante prestar atenção às paisagens. Prestar atenção à água, aos espelhos, ao trem que tão frequentemente parte a tela em dois. Prestar atenção ao que as pessoas dizem, e quando elas dizem. São chaves para o labirinto.

Se esta obra singular dos Coen não é a vocação mais profunda da imagem em movimento, então não sei qual é.

Nota 10

Hail, Caesar!, 2016. Direção: Ethan Coen e Joel Coen. Com: Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Frances McDormand, Channing Tatum, Jonah Hill. 106 Min. Comédia.

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