Cinema: Bingo – O Rei das Manhãs

“Alô criançada, o Bozo chegou! Trazendo alegria pra você e o vovô!”. Bozo chegou aos cinemas, mas virou Bingo. A cinebiografia de uma das pessoas que encarnaram o palhaço apresentador de programa infantil na década de 80 é a estreia do montador Daniel Rezende como diretor.

Bingo: O Rei das Manhãs conta a história de Arlindo Barreto que viveu o auge da carreira como o palhaço Bozo. Antes, ator de pornochanchadas, Arlindo tenta subir de patamar na carreira artística. Ao ir a um teste para uma novela, ele percebe que também estavam testando um palhaço que apresentaria um programa infantil. E é aí que a sua carreira decola e muda por completo.

Devido a direitos autorais, vale ressaltar que algumas coisas no longa tiveram que mudar de nome. Arlindo Barreto virou Augusto, Bozo virou Bingo, Globo virou Mundial, SBT virou TVP e Xuxa virou Lulu.

O filme não demora muito a nos mostrar que Augusto tem uma personalidade forte. Logo quando encarna o palhaço, ele mostra relutância a seguir o roteiro americano do programa, pois Bingo é exportado dos Estados Unidos. Devido a baixa audiência no início, ele logo começa a improvisar, o que faz o programa virar sucesso e líder de audiência. Mas uma cláusula no contrato o impede de revelar a sua identidade, o que acaba o frustrando.

Um dos maiores acertos do longa é o roteiro de Luiz Bolognesi e a direção de Daniel Rezende. O filme equilibra muito bem a glória e o fundo do poço, mostrando gradativamente cada fase. Seja por meio das drogas, da bebida ou do sexo, Augusto vai se deteriorando por todos os lados.

O roteiro excelente mostra um contraste entre o palhaço querido por todas as crianças do país, enquanto o seu intérprete é um pai ausente. Isso gera uma das melhores cenas do filme, quando Bingo recebe no seu programa uma ligação do seu filho.

Daniel Rezende trabalha muito bem os closes nos personagens além de conseguir filmar cenas perfeitas, como uma quando Augusto percebe que perdeu o papel de Bingo e ele deixa o estúdio. Nessa hora a câmera vira e as luzes se apagam enquanto ele anda. Perfeito. Em algumas cenas é possível ver certa inspiração em filmes como Birdman e O Mentiroso, e isso só vem a ressaltar cada vez mais a qualidade do longa.

Vladimir Brichta não era a primeira escolha para Bingo. Devido a conflitos de agenda, Wagner Moura que viveria o palhaço acabou indicando Vladimir, e a escolha não poderia ser melhor. Brichta ENCARNA a persona de Bingo como ninguém. Ele nos entrega um personagem com uma mistura de loucura e anarquia, o que era a cara dos anos 80. Em um mundo politicamente correto nos dias de hoje, ver um palhaço apresentador de programa infantil falando palavrões no ar e se esfregando, literalmente, na personagem de Gretchen é muita anarquia. A atuação de Vladimir Brichta é tão perfeita que em alguns momentos é impossível você não lembrar de Heath Ledger como o Coringa. Não estou comparando os dois, estou falando que ele nos faz lembrar e isso é um ponto muito positivo. É aí que percebemos como ele se entregou para o papel.

O longa conta ainda com o talento de Leandra Leal, sempre linda e competente, aqui ela encarna a diretora do programa de Bingo. Destaque também para Cauã Martins que faz Gabriel, o filho de Augusto. O garoto consegue emocionar no momento certo. Também temos a participação de Domingos Montagner que interpretou um palhaço com o qual Augusto faz um laboratório para aprender mais sobre como deve ser um palhaço.

A trilha sonora é um caso a parte. Os temas passeiam desde clássicos do rock nacional como Televisão, dos Titãs, até chegar a uma cena antológica de um dos encerramentos do programa de Bingo com Serão Extra, e aquele refrão “Eu fui dar mamãe… (foi dar mamãe)” com aquele palco repleto de crianças pulando animadas. As trilhas incidentais ainda conseguem ser melhores, pois retratam perfeitamente cada momento da vida de Augusto, e você vai percebendo sua vida mudando conforme a trilha muda de tom.

Bingo: O Rei das Manhãs já consegue um lugar entre um dos melhores filmes nacionais da década. É uma cinebiografia com qualidade, um filme que nos deixa com vontade de descobrir cada vez mais sobre o personagem. Um acerto e tanto para o Cinema Nacional.

 

 

 

Bingo: O Rei das Manhãs, 2017. Direção: Daniel Rezende. Com: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Soren Hellerup, Emanuelle Araújo, Pedro Bial, Cauã Martins, Domingos Montagner, Tainá Müller. 113 Min. Drama.

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