Cinema: Thor – Ragnarok

Após quatro anos desde o seu segundo filme solo, o Deus do Trovão retorna para uma terceira empreitada em Thor: Ragnarok. Apostando em um jeito bem peculiar, com o estilo de seu diretor, Taika Waititi, o filme está dividindo opiniões.

No filme, após a morte de Odin, Asgard recebe Hela, irmã de Thor, que veio para assumir o trono. Após uma batalha, Thor e Loki acabam indo parar em outro mundo e precisam retornar para evitar a destruição do mundo e do povo de Argard.

O longa precisa ser avaliado em diferentes partes. Se você estiver esperando um filme repleto de ação, vai encontrar, porém, vai se incomodar com as várias (eu disse, várias) cenas de comédia, e em sua grande maioria, comédia pastelão. Mas Thor: Ragnarok foi honesto com o público, pois já apresentava esse tipo de humor nos materiais que eram divulgados. Diferente de Homem de Ferro 3, que entregava um trailer carregado no drama, e quando chegou o filme foi um desastre.

Que todos os filmes da Marvel tem uma pontinha no humor, todos sabemos. Mas aqui está muito exagerado. Em algumas horas chega a ser chato, porque as vezes, logo após uma sequencia de drama, vem uma piada. Algumas são sem graça, e outras totalmente desnecessárias, como em certa cena que eles inserem a palavra “ânus”. Por outro lado, todas as piadas inseridas que envolvem o personagem Hulk funcionam. Aliás, Hulk é um dos destaques do filme.

O filme possui um visual deslumbrante e as cenas de ação feitas de dia, inclusive o clímax final é perfeito. A trilha sonora muitas vezes parece deslocada, apenas em alguns momentos, não em todo o filme. A música “Immigrant Song” de Led Zeppelin é bem utilizada nas cenas de ação, mas é pouco para uma série de filmes que sempre teve uma trilha incidental de muita qualidade.

Chris Hemsworth e Tom Hiddleston continuam com uma química incrível. Chris continua perfeito como Thor e Tom continua entregando um dos personagens mais incríveis da Marvel, Loki. Seu personagem continua aquele tipo dúbio, hora ajuda, hora é vilão. Mas nunca deixa de lado seus interesses. Mark Ruffalo está muito bem como Hulk. Agora um pouco mais controlado, Hulk está muito bem inserido nesse universo de Asgard. Tessa Thompson está incrível como uma guerreira Valquiria. Agora, o principal destaque do filme é Cate Blanchett. Seu visual, por vezes exagerado quando ela está com aqueles chifres, revela uma mulher poderosa, capaz de destruir um item muito importante do herói Thor. De todos os filmes que a Marvel nos entregou, não é exagero dizer que Hela foi a vilã mais poderosa.

Thor: Ragnarok parece meio deslocado do universo Marvel, talvez pelo humor ter passado da conta. Mas o filme é divertido. Mesmo com algumas piadas desnecessárias, o filme entrega uma aventura divertida, mas que não faz muita diferença para o universo que a Marvel cria no cinema.

Thor: Ragnarok, 2017. Direção: Taika Waititi. Com: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Jeff Goldblum, Tessa Thompson, Karl Urban, Mark Ruffalo, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch. 130 Min. Ação.

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Cinema: A Comédia Divina

O conto A Igreja do Diabo, de Machado de Assis, serve de inspiração para a nova comédia brasileira que chega aos cinemas, A Comédia Divina que também faz referências à obra de Dante Alighieri, A Divina Comédia, inclusive claramente no título.

Nesta comédia, acompanhamos Satanás (Murilo Rosa) que vê cada vez mais o número de seus seguidores caírem e resolve vir à Terra para lançar a sua própria Igreja. A ideia do roteiro é incrível e nos faz imaginar que daria uma excelente comédia. Porém, a ideia não foi bem executada.

O filme é recheado de problemas. Um deles é o que assola boa parte dos filmes da Globo Filmes. Assim como outros, o filme parece um episódio gigante de algum seriado cômico da Rede Globo, ou algum especial desses exibidos em alguma data. Em nenhum momento o longa tem cara de filme. Uma parte desse resultado negativo é pela direção de arte bem novelesca, que inclusive lembra muito novelas como Vamp e O Beijo do Vampiro nos sets onde representam os locais em que Satanás e sua trupe ficam.

O diretor Toni Venturi até que é bem-intencionado em fazer um longa divertido, porém sua tentativa realmente não dá certo. O elenco do filme tem personagens que são importantes para a história, mas que não funcionam. A jornalista vivida por Monica Iozzi em nenhum momento consegue ser engraçada. Não por culpa da atriz, e sim do roteiro. O estilo de humor de Iozzi é diferente, é uma coisa mais no improviso. Aqui, com um roteiro pronto, o humor proposto a ela não funciona. Outro erro do filme é tentar um romance entre a personagem de Iozzi e o personagem de Thiago Mendonça, que interpreta Lucas. Em nenhum momento os dois passam química na tela. É perceptível como acaba sendo forçado querer forçar uma relação dos dois, principalmente por ter nascido do nada, sem uma introdução descente.

Murilo Rosa funciona como Satanás. O personagem possui um ar de sedutor que imaginamos para um personagem desses, e ele é um dos poucos que as falas funcionam. As melhores partes do filme são os encontros entre ele e o personagem de Deus, interpretado por Zezé Motta. Dalton Vigh que interpreta o jornalista Mateus também tem algumas cenas interessantes, mas nada mais que isso. Outros personagens coadjuvantes até conseguem tirar uma ou outra risada. Mas é pouco, para um filme que se propôs a fazer mais.

Típico caso do trailer melhor que o filme. Toni Venturi perde muito tempo explorando a figura de Satanás no mundo, quando poderia focar mais nele e em sua Igreja, pois é lá que estão as melhores sequencias do filme. O roteiro até emprega algumas falas que servem como lição de moral. São até interessantes, mas fica meio deslocado para o que realmente o filme se propôs.

Mesmo com erros, é um filme assistível. Mas a sensação que fica, é que a obra de Machado de Assis merecia um maior cuidado para ser levada ao cinema.

A Comédia Divina, 2017. Direção: Toni Venturi. Com: Murilo Rosa, Monica Iozzi, Thiago Mendonça, Juliana Alves, Debora Duboc, Zezé Motta, Dalton Vigh. 95 Min. Comédia.

Cinema: Detroit em Rebelião

Kathryn Bigelow é uma diretora que gosta de arriscar e pegar temas fortes para transformar em filmes. Venceu o Oscar de Melhor Filme com Guerra ao Terror que acompanhava o dia a dia de uma equipe de soldados americanos no qual desarmavam bombas na guerra do Iraque. Em A Hora Mais Escura, acompanhamos a personagem de Jessica Chastain na caçada ao homem mais procurado do mundo, Osama bin Laden. Aqui em Detroit em Rebelião, ela mostra um pouco dos protestos da população negra contra a violência policial que aconteceu na cidade no ano de 1967.

Detroit em Rebelião é baseado em fatos reais e mostra de maneira forte e revoltante a violência policial e o preconceito voltado para a população negra. A cidade viveu cinco dias de caos, com saques, mortos, feridos e muitas prisões. Esse assunto é muito maior do que se imagina e mostrar todo o ocorrido em um filme de pouco mais de duas horas é impossível. Bigelow acerta ao iniciar o filme com uma animação e fazendo uma introdução do assunto, assim ela consegue direcionar seu filme para a parte principal, em que acompanhamos toda uma sequência longa, perturbadora e tensa em um Motel que era habitado em sua maioria por negros e é lá que se passa a melhor parte do seu filme.

O estilo filmado de maneira quase documental por Bigelow em Guerra ao Terror está de volta em Detroit em Rebelião. Sua câmera tremida nos coloca mais dentro do filme ainda, porque o filme inteiro é feito de maneira intensa. De maneira mais de perto, acompanhamos o policial Krauss (Will Poulter, aquele garotinho chato que tínhamos visto em As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada), ele se mostra totalmente tomado pelo preconceito e um abuso de violência que revolta o espectador. O músico Larry (Algee Smith), que após perder a chance de se apresentar com a sua banda e tentar o estrelato, se vê nesse motel e acaba sofrendo essa noite de horror, em companhia também do segurança Dismukes (o talentoso John Boyega) que por ter um bom relacionamento com policiais acaba estando presente e vendo tudo o que eles cometeram nesta noite de barbárie.

O recorte que Bigelow fez na história foi muito bem adaptado. Logicamente que uma geral em todo o ocorrido poderia ser mais bem aproveitada em um documentário de mais horas. A diretora acerta ao mesclar suas cenas filmadas com imagens da época do incidente, ou fotos que mostravam o que tinha acontecido. O filme é carregado por uma trilha sonora tensa e em alguns momentos o terror causado pelos policiais contrasta com a música cantada por Larry e todo o drama vivido pelos personagens em sequências emocionantes.

Kathryn Bigelow nos entrega um filme com um acontecimento antigo, mas que possui uma história muito atual. Lendo a sinopse do filme e acompanhando as falas de alguns personagens sabemos que estamos no ano de 1967. Mas se em nenhum momento nos fosse informado o ano, o filme se encaixaria perfeitamente nos dias atuais. O preconceito no mundo ainda é forte e o abuso de violência policial ainda existe. E o que nos deixa mais triste é saber que dos acontecimentos em Detroit até os dias de hoje já se passaram 50 anos. No entanto, praticamente nada mudou. Nada.

Detroit, 2017. Direção: Kathryn Bigelow. Com: John Boyega, Will Poulter, Algee Smith, Jacob Latimore, Jason Mitchell, Hannah Murray, Jack Reynor, Kaitlyn Dever, Ben O’Toole, John Krasinski, Anthonu Mackie, Tyler James Williams, Malcolm David Kelley. 143 Min. Drama.

Cinema: Mãe!

Darren Aronofsky é daqueles diretores que quando despontam em Hollywood chamam muita atenção. Da mesma geração de M. Night Shyamalan, Darren chamou a atenção logo em sua estreia com o seu estilo de filmagem em Pi. Em seguida realizou um de seus melhores filmes, Requiem Para um Sonho. Passando por Fonte da Vida e O Lutador, o diretor chegou ao ápice com Cisne Negro, filme que rendeu o Oscar de Melhor Atriz para Natalie Portman. Noé, no entanto, dividiu muito a opinião das pessoas, aliás, dividir a opinião das pessoas é uma das marcas das obras de Aronofsky.

Aqui em Mãe!, Darren conta a história de uma jovem esposa (Jennifer Lawrence) que passa seus dias restaurando a enorme casa que vive com seu marido (Javier Bardem), um escritor que tenta reencontrar a inspiração para voltar a escrever poemas. Os dias calmos e tranquilos ficam diferentes quando estranhos começam a chegar a casa e o marido os deixa ficarem, mesmo com a rejeição da esposa.

O tom de mistério que reina nos trabalhos de Aronofsky já começa nos nomes dos personagens. Seus personagens não possuem nomes próprios. Javier Bardem é Ele e Jennifer Lawrence é Mãe, Ed Harris é Homem e Michelle Pfeiffer é Mulher. Dito isso já podemos imaginar que adentraremos em um enorme quebra-cabeça recheado de metáforas e referências que exigirá muita atenção por parte do público para o entendimento (ou não) do filme.

A personagem de Jennifer Lawrence interpreta uma mulher à moda antiga. Muito ligada a casa, ela passa seus dias se dedicando a ela e ao marido. Uma mulher submissa a ele, que não tem muita voz para dar opiniões. Isso fica nítido quando desconhecidos chegam a casa e contra a sua vontade, o marido permite eles ficarem.

Javier Bardem é um escritor que vive uma crise na sua escrita. Fez muito sucesso no passado, porém, há anos não consegue escrever nada. A chegada dos desconhecidos em sua residência e um acontecimento na vida do casal vai aos poucos fazendo a sua inspiração voltar.

Em nenhum momento Darren Aronofsky vai dando respostas. O filme inteiro é um emaranhado de informações que faz o público se perguntar muitas vezes, “o que está acontecendo?”. É muito complicado falar sobre Mãe! sem entrar nos spoilers. Porém, é importante falar que o filme vai levando a sua história para uma situação insustentável. O que começa com um estranho chegando, termina com a casa habitada por dezenas de estranhos. O que pode gerar uma sensação de incômodo no espectador, por se compadecer com a personagem Mãe.

Aronofsky vai utilizando mistério e códigos para contar uma história simples. É como se o diretor brincasse de um jogo de adivinhação com o seu público. As metáforas são importantes, porém, nem tão simples de ser respondidas. O maior mérito de Darren é fazer seu filme continuar após a sessão. Amando ou odiando o filme, é impossível você não sair conversando, discutindo e debatendo sobre o filme.

Jennifer Lawrence entrega a sua melhor interpretação na carreira, principalmente na parte final do filme. Sua incrível interpretação já é forte candidata a estar concorrendo ao Oscar de Melhor Atriz, tamanha a sua dedicação e perfeição. Javier Bardem está impecável como sempre. E consegue empregar feições que são muito importantes em cena, principalmente para um filme que tem sua história contada com a ausência de trilha sonora. Aqui o silêncio é muito importante e Darren Aronofsky trabalha muito bem o silêncio.

O longa pode fazer você ter diversos entendimentos. Os enigmas de Aronofsky seriam ligados a uma história sobre fama, bíblica ou sobre a mente humana mergulhada em uma depressão? Mãe! é um filme que precisa ser descoberto para que você possa tirar as suas próprias conclusões.

Mother! 2017. Direção: Darren Aronofsky. Com: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson. 121 Min. Drama.

Cinema: It – A Coisa

Chega aos Cinemas It: A Coisa, uma readaptação do excelente livro de Stephen King. Digo readaptação porque o livro já virou um filme para a televisão em 1990 em It: Uma Obra Prima do Medo. Porém, nesse novo longa, um tratamento mais cuidadoso a toda obra de King marca a qualidade do filme.

Na trama, crianças começam a desaparecer na cidade de Derry. Um deles é irmão de Bill, Georgie. Bill mais seis amigos começam uma busca para tentar encontrar o responsável pelos desaparecimentos, e acabam descobrindo que a cada 27 anos coisas estranhas acontecem na cidade. Enquanto isso, eles sofrem com uma ameaça, o palhaço Pennywise que os amedrontam tocando muito fundo nos seus medos mais escondidos. E que ele pode ser o responsável pelos desaparecimentos.

A obra de Stephen King possui aproximadamente 1000 páginas. Enquanto o filme de 1990 contou toda a história em um longa de três horas de duração, aqui nesta readaptação de 2017, apenas a primeira parte do livro, focada nas crianças, foi contada. Ficando a segunda parte do livro, com essas mesmas crianças já adultas, para um segundo filme. Isso foi fundamental para contar a história com mais detalhes, aprofundando o drama de cada personagem.

Dirigido por Andy Muschietti, do bom Mama, o diretor tem a árdua tarefa de mostrar muita coisa em 135 minutos de filme. Mostrar o convívio de sete crianças com suas respectivas famílias, abordar seus medos, desenvolver o palhaço Pennywise, criar conflitos e ainda deixar espaço para um pequeno desenvolvimento romântico. Felizmente, o diretor conseguiu cumprir com méritos todos esses desafios.

Stephen King sempre gostou de mostrar em suas obras aquele grupo de minorias que juntos são mais fortes. Conta Comigo é clássico e tem em sua essência essa característica. Aqui ele faz mais e consegue reunir no grupo de crianças uma que sofre de gagueira, um asmático, um negro, um judeu, um gordinho e uma garota que sofre abusos do pai. O diretor Andy Muschietti consegue trabalhar cada um deles de maneira muito sútil, mostrando as relações familiares e nos fazendo entender de maneira fácil seus medos e seus anseios.

O diretor consegue mesclar muito bem momentos de terror e frases hilárias de maneira a não fazer o filme perder a tensão. Sem medo de chocar o público, Andy mostra cenas chocantes como membros sendo arrancados, violência contra crianças, bullying, abuso infantil. Tudo com muito cuidado e na medida certa. O diretor consegue trabalhar bem com os cenários. Cenas como quando Bill vê seu irmão no porão, a assustadora cena do banheiro com Beverly que lembra muito Carrie, a Estranha e o ápice final, dentre muitas outras cenas, mostram a qualidade de todo o trabalho do diretor.

O elenco infantil foi muito bem escolhido e dirigido. Personagens carismáticos, com destaque para Sophia Lillis que interpreta Beverly demonstrando ser a mais talentosa do grupo, com um olhar que consegue demonstrar muitos sentimentos. Seu personagem possui um trabalho muito bem feito mostrando o seu lado feminino e suas descobertas. Jack Dylan, que faz Eddie, mostra toda histeria e exagero que o personagem possui, também está ótimo. E para os fãs de Stranger Things, ainda temos Finn Wolfhard, o alívio cômico do grupo e, diga-se de passagem, um alívio cômico que funciona muito bem.

Agora abrimos espaço para falar da alma do filme. Sem sombra de dúvidas o longa não seria o mesmo sem Bill Skarsgard e seu Pennywise. O palhaço dançarino prefere fazer suas vítimas sofrerem de maneira psicológica ao invés de simplesmente matá-las. Pennywise é malvado, perverso, cruel, DOENTIO. Skarsgard consegue transparecer tudo isso em uma atuação impressionante. Algumas pessoas não conseguem ver suas cenas, de tão DOENTIO que ele está. O ator surpreende e entrega um dos maiores vilões em filmes de terror da história. Se muitos se impressionavam com o Pennywise de Tim Curry no filme antigo, este de Bill Skarsgard vem para ser o Pennywise definitivo. Com frases desafiadoras para quem entra em seu caminho como “Eu não sou real o suficiente para você?”, o ator consegue encarnar realmente o verdadeiro medo. Aliás, o filme consegue demonstrar muito bem como Pennywise fica mais forte. Quanto mais medo e inocência das crianças, mais forte o palhaço dançarino fica.

Este novo filme poderia facilmente ser enquadrado em um longa dos anos 80. Não digo em suas características, pois essas são dos anos 80. Digo na alma do filme. O sentimento de amizade, companheirismo, aventura, e união perpetua por todo o filme. It: A Coisa é um filme gostoso de assistir e esse clima oitentista colabora com isso. A fotografia do filme é um primor de tão linda que está, soube aproveitar bem a época que foi retratada e o resultado é fantástico.

Outra coisa perfeita no filme é o design de produção. Não seria exagero se o filme aparecesse entre os indicados ao Oscar nessa categoria. A criação da casa antiga e abandonada que as crianças entram em uma das partes do filme é um verdadeiro capricho. O fato de nós, espectador, não conhecer a casa, nos coloca no mesmo ponto das crianças. Cada espaço adentrado é uma surpresa. A persona de Pennywise tem um figurino e maquiagem perfeitos. O trabalho de produção é tão bacana e cuidadoso no filme, que podemos observar em cenas simples, onde as crianças andam na rua, filmes como Batman e A Hora do Pesadelo 5 que estavam em cartaz no cinema da cidade. Filmes que realmente foram lançados na época em que a história se passa.

O longa aproveita para reverenciar diversas obras de Stephen King que também perpetuam na cultura pop nos dias de hoje. É possível pegar referências de Conta Comigo, Carrie, a Estranha, Christine: O Carro Assassino, filmes baseados na obra do escritor, e também lembrar de Stranger Things, sendo que esta já referencia tantos filmes dos anos 80.

It: A Coisa é audacioso ao confirmar já no seu próprio final, a parte dois do filme. As crianças fizeram sua parte, agora é torcer para que a continuação que deve chegar em 2019 aos cinemas, mostrando essas crianças 27 anos mais velhas, seja tão excelente como a primeira parte.

 

 

 

It, 2017. Direção: Andy Muschietti. Com: Bill Skarsgard, Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Nicholas Hamilton, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert. 135 Min. Terror.

Cinema: Bingo – O Rei das Manhãs

“Alô criançada, o Bozo chegou! Trazendo alegria pra você e o vovô!”. Bozo chegou aos cinemas, mas virou Bingo. A cinebiografia de uma das pessoas que encarnaram o palhaço apresentador de programa infantil na década de 80 é a estreia do montador Daniel Rezende como diretor.

Bingo: O Rei das Manhãs conta a história de Arlindo Barreto que viveu o auge da carreira como o palhaço Bozo. Antes, ator de pornochanchadas, Arlindo tenta subir de patamar na carreira artística. Ao ir a um teste para uma novela, ele percebe que também estavam testando um palhaço que apresentaria um programa infantil. E é aí que a sua carreira decola e muda por completo.

Devido a direitos autorais, vale ressaltar que algumas coisas no longa tiveram que mudar de nome. Arlindo Barreto virou Augusto, Bozo virou Bingo, Globo virou Mundial, SBT virou TVP e Xuxa virou Lulu.

O filme não demora muito a nos mostrar que Augusto tem uma personalidade forte. Logo quando encarna o palhaço, ele mostra relutância a seguir o roteiro americano do programa, pois Bingo é exportado dos Estados Unidos. Devido a baixa audiência no início, ele logo começa a improvisar, o que faz o programa virar sucesso e líder de audiência. Mas uma cláusula no contrato o impede de revelar a sua identidade, o que acaba o frustrando.

Um dos maiores acertos do longa é o roteiro de Luiz Bolognesi e a direção de Daniel Rezende. O filme equilibra muito bem a glória e o fundo do poço, mostrando gradativamente cada fase. Seja por meio das drogas, da bebida ou do sexo, Augusto vai se deteriorando por todos os lados.

O roteiro excelente mostra um contraste entre o palhaço querido por todas as crianças do país, enquanto o seu intérprete é um pai ausente. Isso gera uma das melhores cenas do filme, quando Bingo recebe no seu programa uma ligação do seu filho.

Daniel Rezende trabalha muito bem os closes nos personagens além de conseguir filmar cenas perfeitas, como uma quando Augusto percebe que perdeu o papel de Bingo e ele deixa o estúdio. Nessa hora a câmera vira e as luzes se apagam enquanto ele anda. Perfeito. Em algumas cenas é possível ver certa inspiração em filmes como Birdman e O Mentiroso, e isso só vem a ressaltar cada vez mais a qualidade do longa.

Vladimir Brichta não era a primeira escolha para Bingo. Devido a conflitos de agenda, Wagner Moura que viveria o palhaço acabou indicando Vladimir, e a escolha não poderia ser melhor. Brichta ENCARNA a persona de Bingo como ninguém. Ele nos entrega um personagem com uma mistura de loucura e anarquia, o que era a cara dos anos 80. Em um mundo politicamente correto nos dias de hoje, ver um palhaço apresentador de programa infantil falando palavrões no ar e se esfregando, literalmente, na personagem de Gretchen é muita anarquia. A atuação de Vladimir Brichta é tão perfeita que em alguns momentos é impossível você não lembrar de Heath Ledger como o Coringa. Não estou comparando os dois, estou falando que ele nos faz lembrar e isso é um ponto muito positivo. É aí que percebemos como ele se entregou para o papel.

O longa conta ainda com o talento de Leandra Leal, sempre linda e competente, aqui ela encarna a diretora do programa de Bingo. Destaque também para Cauã Martins que faz Gabriel, o filho de Augusto. O garoto consegue emocionar no momento certo. Também temos a participação de Domingos Montagner que interpretou um palhaço com o qual Augusto faz um laboratório para aprender mais sobre como deve ser um palhaço.

A trilha sonora é um caso a parte. Os temas passeiam desde clássicos do rock nacional como Televisão, dos Titãs, até chegar a uma cena antológica de um dos encerramentos do programa de Bingo com Serão Extra, e aquele refrão “Eu fui dar mamãe… (foi dar mamãe)” com aquele palco repleto de crianças pulando animadas. As trilhas incidentais ainda conseguem ser melhores, pois retratam perfeitamente cada momento da vida de Augusto, e você vai percebendo sua vida mudando conforme a trilha muda de tom.

Bingo: O Rei das Manhãs já consegue um lugar entre um dos melhores filmes nacionais da década. É uma cinebiografia com qualidade, um filme que nos deixa com vontade de descobrir cada vez mais sobre o personagem. Um acerto e tanto para o Cinema Nacional.

 

 

 

Bingo: O Rei das Manhãs, 2017. Direção: Daniel Rezende. Com: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Soren Hellerup, Emanuelle Araújo, Pedro Bial, Cauã Martins, Domingos Montagner, Tainá Müller. 113 Min. Drama.

Cinema: A Torre Negra

Há mais de quatro décadas que as obras do escritor Stephen King ganham vida em Hollywood. Algumas vezes bem produzidas e de qualidade como À Espera de Um Milagre, Um Sonho de Liberdade, O Iluminado, e outras bem regulares, como O Apanhador de Sonhos e Sonâmbulos. E agora é a vez de A Torre Negra chegar aos cinemas, 35 anos depois do primeiro livro O Pistoleiro ser escrito.

O longa aborda a história do jovem Jake, garoto que mora com a mãe e o padrasto. Seus sonhos mostram um universo paralelo, onde um feiticeiro denominado O Homem de Preto tenta destruir a Torre Negra, a única fonte que ainda mantém o universo a salvo. Os sonhos também mostram um Pistoleiro, o único capaz de proteger a Torre.

O filme tem um problema sério de roteiro. Não adianta listar aqui as mudanças de livro para filme, porque são muitas. Mas é importante destacar que a essência da história criada por Stephen King foi deixada para trás. O filme não se preocupa em ambientar melhor o público na história, respondendo e explicando melhor elementos que são mostrados. O que a Torre possui que é capaz de proteger o universo? Porque o Pistoleiro é o único que pode protegê-la? Quem é o Rei Rubro? E isso só para citar algumas coisas.

Imagine uma pessoa que nunca assistiu a saga O Senhor dos Anéis. Essa pessoa decide começar assistindo a saga pelo filme As Duas Torres. Essa mesma pessoa ficaria se perguntando algumas coisas, em busca de respostas sobre como cada personagem chegou naquele ponto da história. É essa mesma sensação que A Torre Negra passa. Parece que estamos assistindo uma continuação, porque o filme nos deixa perdido com algumas coisas.

Apesar da falta de respostas, o filme se segura nos seus dois primeiros atos. Mas quando chega ao final, o longa desanda de vez. O clímax final deixa a desejar em todos os momentos. O filme nos da a impressão que o embate final entre o Homem de preto e o Pistoleiro poderia ser algo épico, mas o que vemos em tela é um final recheado de clichês baratos e decepcionantes, que nos faz lembrar até de uma certa cena em Freddy x Jason.

Idris Elba que interpreta o Pistoleiro e o garoto Tom Taylor que interpreta Jake são pontos positivos que acabam se salvando no filme. Matthew McConaughey está totalmente deslocado no papel de O Homem de Preto. O talentoso ator entrega aqui uma atuação um tanto quanto canastrona. O diretor Nikolaj Arcel faz um trabalho totalmente equivocado, é notável que ficou faltando um diretor experiente para levar uma saga tão cultuada quanto A Torre Negra para os Cinemas. Vale lembrar que o roteiro foi escrito por quatro pessoas, o que pode ter ocasionado essas decisões erradas por toda a história do filme.

De bom, o filme apresenta um visual interessante ao tentar fazer uma mistura de faroeste, em um dos mundos paralelos, com a sociedade atual no nosso mundo como o conhecemos. E a trilha sonora também se amarra bem à história que se propôs.

Existem planos para uma sequência no Cinema e também para que o livro vire uma série de televisão. Caso tudo isso se confirme, é bom que muita coisa seja repensada e alterada. Seguir mais de perto o livro de King é um caminho que deve ser tomado.

 

 

 

The Dark Tower, 2017. Direção: Nikolaj Arcel. Com: Matthew McConaughey, Idris Elba, Tom Taylor, Dennis Haysbert, Claudia Kim, Jackie Earle Haley, Abbey Lee, Fran Kranz. 95 Min. Ação.