Cinema: Invocação do Mal 2

Invocação do Mal 2

Quando Invocação do Mal estreou em 2013, o cinema de terror estava em crise devido à falta de boas produções dos gêneros. Lampejos como o terror espanhol [REC] e O Exorcismo de Emily Rose salvaram a primeira década dos anos 2000, mas é pouco para um gênero que possui grandes clássicos de décadas passadas. Invocação do Mal tinha a seu favor o fato da história ser baseada em fatos reais, isso, somado a qualidade da produção, resultou em um dos melhores filmes do gênero nos últimos anos.

O filme fez tanto sucesso que acabou ganhando, além desta continuação, um spin-off em 2014, Anabelle, porém nem de longe o filme conseguiu o sucesso anterior de Invocação do Mal.

A história dessa continuação se passa sete anos após o primeiro filme. Lorraine Warren (Vera Farmiga) e Ed Warren (Patrick Wilson) estão abalados devido um caso que investigavam na cidade de Amityville, quando a igreja os contata para investigar um caso na cidade de Enfield, na Inglaterra, onde uma família é assombrada por um ser sobrenatural, que vem através de uma das filhas da matriarca. Enquanto isso, Lorraine também vem tendo premonições de acontecimentos relacionado a sua filha e marido, o que a deixa emocionalmente abalada.

Dirigido pelo malaio James Wan, criador do ótimo primeiro filme da franquia Jogos Mortais, do espetacular Velozes e Furiosos 7, além do primeiro Invocação do Mal, aqui ele consegue utilizar elementos simples em cena e causar muita tensão. James deixa de lado sustos bobos e coloca muito mais profundidade na sua história. Ele faz com que você se sinta um morador da casa, devido a narrativa que ele emprega em cena. O diretor entrega um filme de terror com bastante personalidade.

Outro ponto forte da história é a forma como o diretor trata os personagens. Alguns vivem dramas que nos faz querer mais sobre eles. Desde o drama de Lorraine que a deixa atormentada com visões de morte na sua família, até a mãe da família que além de ter que cuidar sozinha dos quatro filhos, ainda precisa lidar com o sobrenatural. Nesse ponto, onde os personagens são tão profundos, Invocação do Mal nos faz lembrar o grande clássico O Exorcista. O tratamento e o cuidado que o diretor tem com o casal Lorraine e Ed é impecável. Você consegue sentir toda a cumplicidade e amor que eles têm um pelo outro. Além da ótima direção de James Wan, a dupla de atores Patrick Wilson e Vera Farmiga dão muita credibilidade aos personagens. Farmiga inclusive tem uma interpretação fantástica, precisando mesclar sentimentos, ela está boa parte do tempo abalada e precisando ser forte ao mesmo tempo. Ela tem uma das melhores interpretações da carreira. Quem merece destaque também é o elenco infantil, todos muito bem, em especial Madison Wolfe, que interpreta Janet, a garota atormentada pelo ser sobrenatural.

Um dos pontos mais importantes que cercam a história do filme é a entidade que assombra e possui Janet. O demônio Valak, que já era mostrado até nos trailers, tem uma caracterização impressionante, o que o torna um dos personagens mais bem construídos no cinema de terror em termos de aparência. Seu fantasmagórico rosto branco, acompanhado de sua roupa de freira preta, é de causar arrepios em todo o público. O personagem é tão bem elaborado, que mesmo sendo visto no trailer, não estragou em nada o seu objetivo, que é o de assustar. O longa ainda conta com uma trilha sonora que remete aos filmes de terror antigos e que contribui muito para o clima assustador da história.

Uma boa história nas mãos de um bom diretor que gosta de trabalhar com o gênero, e que resultou em um ótimo filme. James Wan nos deixa ansiosos para mais algum caso dos Warren, desde que com a mesma qualidade dos dois primeiros longas.

Nota 9

The Conjuring 2, 2016. Direção: James Wan. Com: Patrick Wilson, Vera Farmiga, Madison Wolfe, Frances O`Connor, Lauren Esposito, Benjamin Haigh, Patrick McAuley, Simon McBurney, Frana Potente. 134 Min. Terror.

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Cinema: X-Men – Apocalipse

A Odisseia Perdida de Bryan Singer

X-Men Apocalipse

Definitivamente, não tem nenhuma importância quais truques se escondam no genoma dos X-Men, há uma coisa que não se altera: o quanto esses mutantes são deliciosamente, enfurecedoramente, trágica e magnificamente humanos. De todos os diversos personagens de quadrinhos que já chegaram ao cinema nessa última década, não há outros que se pareçam mais com você e eu. Ciúme, mau-humor, teimosia, ingenuidade, tolice, pessimismo – os X-Men compõem um catálogo tão vívido dos defeitos universais ao Homo sapiens, e às vezes são capazes de uma generosidade e uma lealdade tão autenticamente humanas também, que é obrigatório reconhecer: não existe gente mais comum do que eles. Foi sempre nisso que Bryan Singer, como diretor e/ou produtor da série, se ancorou: o público vai ao cinema pelos poderes especiais dos X-Men, mas fica porque se reconhece neles. Singer levou tão a sério esse preceito que pode-se argumentar que ele trata as características mais extraordinárias dos mutantes quase que como alegorias – como se elas fossem a expressão em forma bruta dos traços de caráter preponderantes de cada um dos X-Men. Dou um exemplo: Eric Lensherr/Magneto foi tão traumatizado por Auschwitz que, quando perde a compostura, vira a esquina – ou seja, reproduz no seu comportamento a agressividade e a megalomania de que ele próprio foi vítima. É uma ideia robusta, e por isso ela foi sempre cuidadosamente protegida e mantida em todos os filmes. Até aqui: X-Men: Apocalipse, abandona essa lógica. E, apesar de suas inegáveis qualidades como entretenimento, ele mais desvia a série do caminho do que a faz avançar. Dá vontade de fazer como Mercúrio (o ótimo Evan Peters) na única sequência verdadeiramente excepcional do filme: congelar a ação, ajeitar tudo que está meio fora de lugar, dar um retoque aqui e ali, por pura diversão, e só então fazer o tempo andar novamente.

O longa tem como tônica Apocalipse, En Sabah Nur (Oscar Isaac) é o mutante original. Após milhares da anos, ele volta a vida disposto a garantir sua supremacia e acabar com a humanidade. Ele seleciona quatro Cavaleiros nas figuras de Magneto (Michael Fassbender), Psylocke (Olivia Munn), Anjo (Ben Hardy) e Tempestade (Alexandra Shipp). Do outro lado, o professor Charles Xavier (James McAvoy) conta com uma série de novos alunos, como Jean Grey (Sophie Turner), Ciclope (Tye Sheridan) e Noturno (Kodi Smit-McPhee), além de caras conhecidas como Mística (Jennifer Lawrence), Fera (Nicholas Hoult) e Mercúrio (Evan Peters), para tentar impedir o vilão.

A estratégia do roteiro é até um pouco emblemática na rusga ideológica entre o conciliador Professor Xavier e o vingativo Magneto. Mas digamos que o problema é precisamente Apocalipse, o primeiro mutante e o mais estrondosamente poderoso de todos eles, já que desde tempos imemoriais vem acumulando habilidades. Há quase cinquenta séculos Apocalipse estava adormecido, nos subterrâneos da cidade do Cairo. Mas, ao despertar, quer pegar a coisa do ponto em que a deixou – preparando uma nova hecatombe para destruir a humanidade e a civilização e, assim, galgar mais um degrau na sua ascensão divina.

Bryan Singer dirige com muita competência e mais uma vez acerta na sua assinatura visual, deixando o longa visualmente inspirado nos desenhos de televisão dos anos 1990 e em algumas edições dos quadrinhos, mas ao colocar entre os X-Men o tão repisado megavilão que quer massacrar e destruir, ele vai contra o que pregou até aqui. Uma das melhores sacadas da série foi rejeitar os vilões “de quadrinhos” e preferir figuras facilmente encontráveis na geopolítica contemporânea: um senador que quer registrar os portadores de mutações da mesma forma como se registram os criminosos sexuais, um industrial do setor de Defesa que fomenta uma guerra para ganhar com ela, um cientista que quer curar mutantes (pressupondo, portanto, que ser X-Men é uma doença), militares que querem “weaponizar” os mutantes ou conspiram para criar um clamor popular em favor de sua erradicação. Quase sempre, também, as tramas de X-Men se desenrolaram em cenários que poderiam ter sido tirados do noticiário, ou de fato o foram – da II Guerra Mundial à Crise dos Mísseis de Cuba de 1962, da derrocada americana no Vietnã à opressão no Bloco Comunista, os filmes já se aproveitaram de uma infinidade de eventos históricos nos quais imbricar o enredo (até para a bala maluca que matou John Kennedy já se deu uma explicação). Aqui, porém, Singer transplanta a série para o território da fantasia, onde ela nunca teve raízes – e onde ela é só mais uma entre tantas outras.

Nota 6

X-Men: Apocalypse, 2016. Direção: Bryan Singer. Com: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac, Evan Peters, Sophie Turner, Tye Sheridan, Lucas Till, Kodi Smit-McPhee. 144 Min. Ação.

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Cinema: Ave, César!

Ave Cesar

O que tem nessa cabeça? “Ave, César!” e o poder da história.

De inúmeras virtudes (e são muitas) que os bons filmes têm, poucas são as obras audiovisuais de mercado que atacam de frente a questão mais fascinante de todas as que o cinema pode propor: como nós, na plateia, vemos, compreendemos e adicionamos significado àquela sucessão de imagens em movimento? Que maravilhosa engenharia (ou arquitetura, para repetir um conceito coenesco) nos possibilita criar histórias a partir daquilo que vemos, e dar a essas histórias elementos de emoção, memória e até paixão que trazemos do fundo de nossa alma e colocamos, como uma oferenda a um deus antigo, no altar da tela?

Ave, César!/Hail, Caesar!, dos irmãos Coen, faz exatamente isso. Nem mais, nem menos.

A história é simples, se passa no lapso de um dia, no clima da paranoia anti-comunista da década de 1950, data em que a principal estrela dos estúdios Capitol Pictures, Baird Whitlock (George Clooney, que aqui está excepcional) – não tão bom ator assim –, é sequestrada bem no meio das filmagens da superprodução de época chamada… “Ave, César!”. Caberá ao leão-de-chácara da companhia, Edward Mannix (Josh Brolin) – cuja função é proteger os atores da empresa, desde fazer com que eles cumpram seus compromissos profissionais a abafar escândalos –, trazer o artista são e salvo de volta ao set no decurso deste dia terrível, horrível, espantoso e horroroso.

Na Hollywood de 2016, onde é impossível recusar um convite dos irmãos Coen, fica fácil encontrar nomes de peso no elenco formado apenas por estrelas. Que vai de Scarlett Johansson, Channing Tatum, passando por Tilda Swinton (essa última em uma participação memorável).

Muito embora Ave, César! possa ser um filme de narrativa bagunçada, ele pretende mostrar essa adorável bagunça de Hollywood que nós adoramos. É o inverso do francês O Artista, onde lá o pretendido era fazer uma carta de amor incondicional a Hollywood. Aqui os Coen preferem mergulhar na loucura de Hollywood com seus escândalos, egos e absurdos em geral.

A narrativa perde um pouco o fio da meada no final do segundo ato, dando um tom mais lento ao desenrolar de algumas histórias centrais. Mas longe de tirar o brilho do conjunto da obra.

E impressionante como Ave, César! traça um paralelo interessante e criativo entre o calvário e a indústria cinematográfica americana, sem abrir mão do bom humor.  É um filme que possui história para mais do que suas 1h40 de duração.

Se eu fosse fazer uma ressalva à tremenda viagem que é Ave, César! eu diria isso – que é fácil se perder nele. Mas considerando o nível de idiotice da maioria dos filmes este ano, estou achando ótimo.

É muito importante prestar atenção às paisagens. Prestar atenção à água, aos espelhos, ao trem que tão frequentemente parte a tela em dois. Prestar atenção ao que as pessoas dizem, e quando elas dizem. São chaves para o labirinto.

Se esta obra singular dos Coen não é a vocação mais profunda da imagem em movimento, então não sei qual é.

Nota 10

Hail, Caesar!, 2016. Direção: Ethan Coen e Joel Coen. Com: Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Frances McDormand, Channing Tatum, Jonah Hill. 106 Min. Comédia.

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Cinema: Capitão América – Guerra Civil

Capitão América - Guerra Civil

E chega aos cinemas Capitão América: Guerra Civil, um dos filmes mais esperados do ano, não só por colocar o Capitão América e o Homem de Ferro frente a frente com suas divergências de pensamentos, mas também por mostrar pela primeira vez o Homem Aranha em um filme do universo cinematográfico da Marvel.

Os acontecimentos de Capitão América: Guerra Civil se passam logo depois de Vingadores: Era de Ultron. Depois da destruição do ataque de Ultron, que deixou um rastro de destruição, seguido de um erro cometido pela Feiticeira Escarlate, os políticos adotam como medida um acordo intitulado de Tratado de Sokóvia, nele os heróis precisariam se registrar para conter futuras catástrofes em grande escala envolvendo esse tipo de conflito e, é claro, responsabiliza-los em caso de erros. É nesse ponto que os dois principais heróis da história divergem em seus ideais e pensamento. De um lado temos Steve Rogers que não aceita se registrar, pois acredita que é bem melhor os heróis atuarem da forma em que estão; e do outro lado temos Tony Stark que acredita que se registrar junto ao governo seja o melhor que os heróis possam fazer. Esse conflito de pensamentos faz com que cada herói consiga adeptos para lutar por cada ideal. O que faz com que o filme seja uma overdose de heróis a todo momento.

Dois pontos merecem muito destaque no roteiro. O primeiro é o filme não mostrar nenhum dos dois heróis como vilão. Entre os conflitos deles, não existe bem ou mal, existe sim, como já falei acima, uma divergência de pensamentos. E isso faz com que seja bacana para o espectador escolher de qual lado ficar, criando assim uma interação bastante interessante entre filme-público. Até nas campanhas de marketing, a Marvel trabalhou muito bem isso, evidenciando muito na grande rede os Times de Capitão América e Homem de Ferro. Outro ponto bastante positivo foi o filme ter acertado na dramaticidade. Os diretores Anthony e Joe Russo entregam o filme mais maduro e dramático do universo Marvel. Aquele drama que Homem de Ferro 3 prometeu entregar, mas que ficou só no trailer, aqui é trabalhado de maneira cuidadosa pelos irmãos Russo. Aqui, vários personagens tem seus dramas internos, e acompanhar as tomadas de decisões de cada um deles, nos faz participar da história de uma maneira incrível. É muito bom, por exemplo, você ver um ator como Robert Downey Jr. trabalhando o seu ótimo lado dramático, como ele já fez muito bem em filmes mais antigos, como em Chaplin.

Apesar de ir fundo no drama, o filme tem seus momentos engraçados, não muitos, mas tem. E um fato muito bom é que essas piadas não ficam com Tony Stark. Homem Aranha e Homem Formiga são os responsáveis por diálogos e frases hilárias, que vão divertir e fazer rir no momento e na medida certa. Os irmãos Russo souberam dosar muito bem e equilibrar a história de maneira muito satisfatória para que essas piadas não estragassem o conteúdo dramático do filme.

Outro acerto dos irmãos Russo é a boa introdução que eles fazem com o personagem Pantera Negra, interpretado pelo ator Chadwick Boseman. Também com seus dramas internos, o personagem nos envolve de uma maneira muito interessante, a ponto de sua história e seu passado nos interessar mais do que suas habilidades como herói. Outro integrante que dispensa apresentações e que foi muito bem utilizado, foi o Homem Aranha. Interpretado pelo jovem Tom Holland, o garoto tem o carisma suficiente para fazer com que o seu Homem Aranha seja o melhor que o cinema já viu. Ele cai de paraquedas no meio do conflito entre Capitão América e Homem de Ferro, e é nesse momento que o personagem utiliza todo o humor característico do papel. A primeira aparição do Aranha no mundo Marvel nos cinemas foi inesquecível.

O filme possui pequenos erros, nada muito grave. Uma cena em especial, na minha opinião, ficou muito artificial. A cena em questão é uma de ação em uma rodovia. Fica claro que nas mãos de um diretor mais experiente como um Ridley Scott ou um George Miller, essa cena ficaria incrível. Outro ponto que me incomodou foi o vilão Zemo, interpretado por Daniel Bruhl. Considero um personagem fraco e um vilão apagado, sem brilho. Um personagem que está na história sustentando o papel de vilão, mas que no fim da história, se não estivesse lá não teria feito diferença nenhuma.

Capitão América: Guerra Civil mostra um amadurecimento nas histórias da Marvel, que nos remete a lembrar da excelente Trilogia Batman de Christopher Nolan. Agora é torcer que esse amadurecimento continue sendo bem utilizado nas próximas histórias do universo Marvel.

Nota 9

Captain America: Civil War, 2016. Direção: Anthony Russo e Joe Russo. Com: Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Don Cheadle, Jeremy Renner, Chadwick Boseman, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Paul Rudd, Emily VanCamp, Tom Holland, Daniel Bruhl. 147 Min. Ação.

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“Capitão América: Guerra Civil”: Quando cinema é a melhor diversão

Confesso: estava com dois pés atrás com Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War, dir. Anthony Russo e Joseph V. Russo, 2016) e admiti isso francamente lá no meu Facebook. E tinha bons motivos:

  1. Aquele trailer. Imagino, aliás sei, que o marketing da Disney é danado de bom e mirou exato no alvo do público essencial do filme. Que não sou eu. Isso talvez explique porque, depois de ver algumas iterações do trailer, minha vontade de ver Guerra Civil chegou abaixo de zero.
  2. A overdose de filmes de super-herói. Neste último sábado, numa workshop de marketing e branding, a Marvel foi usada como case de uma grande virada de reposicionamento. E é mesmo – justo quando o consumo de seus quadrinhos estava em estagnação indo para a decadência, ela se reinventou desencarnando conteúdo de plataforma e invadindo cinema, TV e games. Palmas pra ela. Agora, que já esgotou minha paciência, ah isso já.

Tendo dito tudo isto, evitei como pude as sessões mornas e fui ver Guerra Civil como se deve – num cinemão de bairro lotado, com um balde de pipoca no colo e cercado pelo público-alvo por todos os lados. E adorei.

Alguns colegas apontaram – com razão – que Guerra Civil é um filme transnarrativa, ou meta-meta (termo que soa absolutamente pornográfico em nosso idioma, mas vá lá…). Ou seja, é um filme que prescinde de história, que se segura num fiapo de trama sem nenhum compromisso com fazer sentido ou apresentar grandes contornos dos personagens e seus dilemas. É um filme sobre uma experiência audiovisual. Quase, desculpem a blasfêmia, um Terrence Malick trincado depois de uma overdose de Red Bull.

Certo, existe um elemento disparador – um bando de políticos buscando algum meio de controlar os super-heróis (já que seus atos afetam toda a humanidade). Cada qual com sua agenda – mas isso é o de menor importância. Estudiosos e fiéis do cânon Marvel – no qual a saga Guerra Civil é decididamente um evangelho maior- poderão discorrer longamente sobre as motivações subjetivas do capitão Steve Rogers e Tony Stark, ou sobre a própria rota de colisão de ambos.

Para mim, e, pelo jeito, para quase todo mundo na sala de cinema superlotada, não fazia a menor diferença. O prazer do filme era seu ritmo exato, sua medida certa entre ação e aventura, seu grupo de adoráveis super-heróis no meio de tudo, a dinâmica de suas sequências de ação de lutas limpas. Tudo isso ao som da mais bonita trilha do ano e uma engenharia de som que beira ao exato.

Não é a toa que o cinema estava cheio de famílias completas, mães e pais e avós e avôs levando seus filhos e netos e divertindo-se com eles, possivelmente por motivos diferentes, cada qual criando sua própria história e referências em cima da experiência de ver o filme. Meta-meta. A obra é a história.

Então, Disney, desculpe a desconfiança. Eu devia ter lembrado que desde a aquisição da Marvel você já produziu o ótimo Soldado Invernal (Captain America: The Winter Soldier, 2014), o excelente Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014) e o “estranho” mas super interessante Homem-Formiga (Ant-Man, 2015). E qualquer filme que começa com uma tirinha de Henry Jackman já ganha meu coração logo na largada.

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Cinema: Mogli – O Menino Lobo

Mogli - O Menino Lobo

120 anos depois, “O Livro da Selva” (The Jungle Book originalmente), do visionário Rudyard Kipling, parece ter sobrevivido ao teste do tempo em cada linha da sua doce narrativa. Walt Disney era um admirador do trabalho de Kipling. Em uma entrevista concedida a rede americana de TV ABC em 1965, ele falou: “Vi uma poesia sem precedentes na obra de Rudyard Kipling. Se tiver que encerar minha carreira como animador, vai ser adaptando O Livro da Selva para o cinema. Meus artistas iriam fazer algo singular.” E foi justamente isso que aconteceu. Mogli: O Menino Lobo foi o décimo nono filme de animação dos estúdios Disney e foi lançado nos cinemas dos EUA em 18 de Outubro de 1967, sendo dirigido por Wolfgang Reitherman. E como o próprio Walt Disney tinha prenunciado, foi também o último filme produzido pelo mesmo, que faleceu durante a produção do longa.

A verdade é que Walt Disney conseguiu sim produzir uma obra de uma singularidade artística ímpar. De um lirismo pouco visto no cinema estadunidense da década de 1960. O longa animado de pouco mais de uma hora, é uma verdadeira exaltação introspectiva em traços não lineares. Uma contemplação sinfônica ao naturalismo artístico da animação.

Passados quase 50 anos, a empresa do rato tem a chance de expor tudo isso em uma adaptação live action. E de forma extraordinária o faz. Mas o diretor Jon Favreau deveria ter ouvido os conselhos da música do urso Baloo, que algum gênio verteu assim para o português: “Eu uso o necessário / Somente o necessário / O extraordinário é demais”. Música que em uma obra como Mogli: O Menino Lobo, ecoa como um hino.

Seu Mogli é uma belíssima façanha técnica que combina live-action, cenários fotorrealistas em computação gráfica e performance capture (ou “captura de desempenho”) aplicada a atores do calibre de Idris Elba (o tigre Shere Khan), Ben Kingsley (a pantera Bagheera), Bill Murray (o urso Baloo), Scarlett Johansson (a serpente Kaa), Lupita Nyong’o (a mãe lobo Raksha), Giancarlo Esposito (o pai lobo Akela) e Christopher Walken (o orangotango Rei Louie).

Mas Mogli: O Menino Lobo é curiosamente pobre em encanto e em emoção. Ingredientes que são fartamente encontrados na obra de 1967.

Essa crise de identidade sem tamanho entre a aventura e a fofura, e entre a fantasia e o realismo, é o aspecto que talvez mais gravemente prejudique Mogli. Os dois volumes de O Livro da Selva, que o inglês nascido na Índia Rudyard Kipling escreveu entre 1893 e 1895, são coletâneas de contos morais protagonizados por animais falantes e pensantes. Conforme o tom da época, têm mais aventura do que graça, e mais lei da selva, nua e crua, do que espírito de conciliação entre espécies. A Disney e Jon Favreau acharam que seria possível fundir esses aspectos divergentes entre os livros e o desenho de 1967. A mim parece um erro de origem. Primeiro, obriga a uma loooonga exposição sobre como Mogli foi parar na selva, por que Shere Khan o odeia, etc. etc. – visual realista pede lógica realista, raciocinaram os produtores. Segundo, causa uma série de pequenos surtos esquizofrênicos: a selva é a violência de Shere Khan, o carinho de Raksha ou o oportunismo boa-praça de Baloo? O roteiro sai pela tangente, optando por um inconvincente darwinismo adocicado. Por fim, animais de desenho, quando falam, não causam estranheza, porque seus traços foram antropomorfizados de forma a que isso pareça natural (e porque são desenho, que seu cérebro já decodifica imediatamente como um território em que tudo é possível). Já animais fotorrealistas e, vá lá, biorrealistas (quero dizer que eles não passaram por um salto evolutivo que justifique a aquisição de linguagem, como os primatas de Planeta dos Macacos), quando falam – é esquisito. Não tem jeito. Em vez de ouvir diálogos, o que eu ouvi, o tempo todo, foi a morte do diálogo – dublagem.

Nota 7

The Jungle Book, 2016. Direção: Jon Favreau. Com: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong’o, Scarlett Johansson, Christopher Walken. 105 Min. Aventura.

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Cinema: Zootopia

Zootopia

Já tem alguns anos que a Disney vem acertando sobre suas criações no quesito animação, após o fracasso de bilheteria ocorrida com algumas produções, como é o caso de A espada é a Lei e Marte Precisa de Mãe.

Esse ano chega uma animação voltada para o público infanto-juvenil que está dando o que falar, Zootopia é uma das produções contemporâneas que mais teve acertos da produtora esse ano.

Quando os telespectadores tiveram acesso ao trailer, imaginaram tratar-se apenas de mais um filme infantil da Disney, porém, quando se ver o longa na íntegra, perceberam que se tratava de uma trama profunda e uma aventura brilhante.

Embora os personagens sejam animais que falam semelhante a fábula, a premissa do filme é bem mais complexa e facilmente reconhecida pelo público, mamíferos e predadores convivem pacificamente, mas a Lei Natural que envolve esses dois reinos não foi completamente resolvida. Com a direção de Byron Howard e Rich Moore (Enrolados e Detona Ralph, respectivamente), somos apresentados a coelhinha fofa chamada de Judy Hopps que desde criança tem o sonho de ir morar na cidade de Zootopia exercendo a profissão de policial.

Esse sonho, porém, não é levada a sério por leões, ursos, rinocerontes e outros gigantes da natureza, considerados mais capazes para o trabalho, inclusive seus pais não a encorajam a prosseguir e preferem que ela seja uma produtora de cenoura como eles e os outros membros da família.

No entanto, esperta e corajosa, Judy consegue entrar para a academia policial e se destacar no recrutamento. Ao se mudar para Zootopia, ela se depara com uma cidade repleta de oportunidades e civilizada, mas ao mesmo tempo está cheia de preconceitos e intolerâncias, inclusive por parte da própria coelhinha. A protagonista acaba tento que tolerar seus preconceitos desde o seu primeiro encontro com a raposa Nick Wilde. Ele, diferente de Judy, possui todas as características que a sociedade impõe sobre sua espécie, é malandro, espalha golpes pela cidade e sua astúcia faz ele levar muitas vantagens.

A relação entre os dois começa a mudar quando Judy e Nick são obrigados a unir forças para resolver um caso de desaparecimento de um animal predador. O chefe de Judy, não acreditando no potencial da coelhinha, dar a ela um prazo de 48 horas para resolver o caso do desaparecimento e é aí que uma trama policial entra em ação, cheia de mistérios e surpresas.

À medida que a trama vai evoluindo, percebemos quão profundo o assunto é e os personagens também. E o que era um mero caso de desaparecimento, é na verdade um complexo caso de animais predadores voltando a sua natureza primitiva de violentos e irracionais.

A história traz uma reflexão sobre julgar pela aparência, em que os protagonistas também estão sujeitos a cometer erros. O mundo criado em Zootopia mostra a intolerância existente no mundo e que precisa ser admitida e superada, não apenas mascarada com falsos moralismos.

Além dos efeitos visuais bastante elaborados, um cenário inteligente, uma reflexão sobre vários preconceitos existente no mundo (inclusive o da mulher como representação do sexo frágil), o longa é mais uma experiência da nova fase do estúdio Disney, que também evitou transformar Elsa em uma vilã e mostrou com a princesa Merida que para ser feliz não precisa da presença de um marido, Zootopia serve para mostrar a essa nova geração que uma fábula precisa ter uma relação mais pessoal, o público precisa fazer parte da história, identificando-se com ela, para captar o real sentido da mensagem. Além disso tudo, não deixando de lado, claro, a diversão, tanto para adultos como para crianças.

Nota 9

Zootopia, 2016. Direção: Byron Howard e Rich Moore. Com as vozes originais de: Ginniferr Goodwin, Jason Bateman, Idris Elba, J. K. Simmons, Octavia Spencer, Shakira. 108 Min. Animação.

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