Cinema: A Forma da Água

Com certeza A Forma da Água será um dos filmes mais lindos que você verá esse ano, e diria mais, da década. O novo filme de Guillermo del Toro mergulha (literalmente) no tempo para contar a história de uma “princesa sem voz”, que nos apaixona com o quanto é capaz de nos dizer.

O filme se passa na década de 1960, estamos na Guerra Fria e a briga entre Estados Unidos e União Soviética serve de pano de fundo para a história de del Toro. Aqui, ele nos mostra a nossa “princesa sem voz”, Eliza Esposito (Sally Hawkins) que trabalha como faxineira em uma base secreta militar americana. A chegada de um ser aquático à base acaba chamando a atenção de Eliza que, muda, consegue manter uma comunicação com o estranho ser.

A tortura na criatura por um cruel policial Strickland (Michael Shannon) motiva a nossa heroína a encontrar um meio de libertar a misteriosa criatura, e para isso ela conta com a ajuda de sua companheira de trabalho Zelda (Octavia Spencer) e seu melhor amigo, o artista Gilles (Richard Jenkins).

Guillermo del Toro mais uma vez é capaz de mostrar beleza e amor onde parece não existir. Se em O Labirinto do Fauno o diretor conseguiu construir uma linda fábula, aqui ele vai mais além, e nos entrega um filme carregado em poesia, que viaja em várias vertentes cinematográficas. O filme é uma linda homenagem ao cinema, o que falar de cenas como a de Eliza e a criatura dançando em preto e branco, ou em outra cena, onde a criatura está parada diante da tela de um cinema de rua. Guillermo mostra a sua capacidade de ir do cinema pop ao cinema arte através de uma linha narrativa impecável.

O roteiro assinado pelo próprio del Toro, dá voz aos excluídos historicamente na sociedade, aqueles que são cercados por preconceitos. Temos a personagem Eliza que tem uma deficiência, Gilles um homossexual nos anos 60, Zelda uma negra, e a própria criatura que é vista até mesmo por Gilles e Zelda no começo, com certo preconceito. A arrogância e prepotência do personagem de Strickland podem ser vista em uma cena entre ele e as personagens de Eliza e Zelda, na qual ele diz que Deus nos faz a sua imagem e semelhança e ele diz que Deus se parece com ele, e um pouco com Zelda (que além de ser mulher, é negra). Só para citar um exemplo, em outra cena em uma cafeteria, o preconceito é mostrado até de maneira mais forte.

Um dos maiores acertos de del Toro foi escalar Sally Hawkins no papel principal. Ela entrega uma atuação monstruosa em um papel muito difícil de construir. Muda, ela precisa atuar muito com suas expressões faciais, e ela dá um show. Uma atuação simplesmente encantadora e apaixonante. A química entre a personagem dela e o personagem de Richard Jenkins é impecável. Octavia Spencer é o alívio cômico nessa grande fábula, além de várias vezes ser a voz de Eliza. Michel Shannon, Michael Stuhlbarg  e Doug Jones (como a criatura) completam o elenco principal.

A trilha sonora de Alexandre Desplat viaja por temas que remetem a clássicos do cinema, que nos fazem sonhar, assim como a sonhadora personagem de Eliza. Guillermo del Toro utiliza até Carmem Miranda nos temas para nos passar o que a personagem principal está sentindo. O filme é perfeito em sua direção de arte, cada cenário é construído de maneira perfeita, o que mostra o carinho e o cuidado de del Toro em todas as fases do filme. E sim, o filme merece todos os prêmios e todas as indicações que teve ao Oscar.

Uma fábula sonhadora e inspiradora, del Toro nos mostra que podemos encontrar o amor, onde menos esperamos. Um cineasta como poucos que é capaz de nos entregar uma poesia em forma de filme.

The Shape of Water, 2017. Direção: Guillermo del Toro. Com: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spenser, Michael Stuhlbarg, Doug Jones, David Hewlett, Nick Searcy. 123 Min. Drama.

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Cinema: The Post – A Guerra Secreta

Poucas coisas casam tão bem na arte do entretenimento como Steven Spielberg e o tema guerra. O cineasta já nos entregou o excelente O Resgate do Soldado Ryan (1998), o tocante Cavalo de Guerra (2011) e os seriados Band of Brothers (2001) e The Pacific (2010), que possuem uma qualidade técnica e um roteiro de alta qualidade. Dessa vez em The Post: A Guerra Secreta, Spielberg deixa o campo de batalha de lado (apenas no começo, ele nos da um gostinho da batalha) para se debruçar nos bastidores da Guerra do Vietnã.

The Post: A Guerra Secreta é focado em um dos maiores escândalos da política americana, do fracasso envolvendo a guerra do Vietnã. Vários presidentes americanos passaram por seus mandatos enviando jovens para morrerem no campo de batalha em uma guerra há muito tempo perdida. O medo do fracasso fez os presidentes empurrarem a guerra “com a barriga”, literalmente. Documentos vazam durante o governo de Richard Nixon, e é aí que o então mediano jornal The Washington Post resolve publicar isso, correndo o risco de serem massacrados por Nixon, do jornal fechar e as principais pessoas que regem o jornal serem presas. Spielberg aproveita o tema para mostrar o poder da imprensa perante a política e a sua liberdade de expressão.

Com uma direção ágil de Steven Spielberg, o filme consegue causar muita tensão, principalmente de sua metade para o fim. Todas as decisões importantes (e não são poucas) que a personagem Kay Graham (Meryl Streep) precisa tomar, deixam-nos na ponta da cadeira para não perdermos nenhuma nuance de que a personagem apresenta. Kay Graham, que acabou de assumir o jornal após a morte do marido, é um verdadeiro peixe fora d’água no mundo de redações e coberturas jornalísticas. Ela é mais o tipo socialite, enquanto o marido era quem realmente tomava conta dos negócios. O diretor de fotografia do filme, Janusz Kaminski, inclusive aproveita muito bem esse fato, pois a todo momento vemos Meryl Streep um pouco mais abaixo do que outros personagens. Seja fazendo com que ela esteja sentada e outros personagens em pé, seja com a própria angulação da cena. Aos poucos percebemos a evolução de Kay afrente do jornal, até culminar em uma cena fantástica, onde ela mostra quem é a verdadeira dona do jornal.

A direção de arte de Rick Carter é de um primor de encher os olhos. Toda a recriação de uma redação de jornal até a parte onde ficam as impressoras é de um cuidado impressionante. O filme nos mostra inclusive as chapas de impressão sendo confeccionadas. Toda essa recriação é mostrada em uma cena tensa, que foi a cena da publicação ou não do jornal. Perfeita.

Precisa mesmo falar de Meryl Streep e Tom Hanks? Mais uma vez ambos estão ótimos em seus papéis. Meryl continua a dominar um personagem como ninguém, não é por menos que essa já é a sua vigésima primeira indicação ao Oscar. Aqui ela consegue atuar apenas com suas expressões faciais em certos momentos. Da um banho de atuação nos momentos em que sua personagem tem a tensão da história voltada para si. Aqui ela mostra o poder da mulher em um mundo dominado por homens. Tom Hanks está em um personagem um pouco diferente do que estamos acostumados a ver, aquele do mocinho. Aqui, longe de ser o vilão, mas ele entrega perfeitamente aquele jornalista que quer trazer a história à tona, que insiste até conseguir o que quer. E ver os dois juntos em cena, Streep e Hanks, é um deleite de apreciação para todos os amantes do cinema. Isso é mais um ponto a favor do filme. O elenco ainda conta com Bob Odenkirk de Better Call Soul e Breaking Bad.

O filme tem um ritmo um pouquinho arrastado no início, mas bobagem, nada que atrapalhe esse grande filme. É Spielberg fazendo cinema de gente grande, mais uma vez em sua carreira.

The Post, 2017. Direção: Steven Spielberg. Com: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts. Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Alison Brie, Carrie Coon, Zach Woods. 116 Min. Drama.

Cinema: Me Chame Pelo Seu Nome

Sensível. Essa é a palavra que encaixa bem para definir o novo filme de Luca Guadagnino (100 Escovadas Antes de Dormir). O longa do diretor italiano vem se destacando nas premiações por abordar um tema atual de maneira leve com toques poéticos.

Baseado no livro de André Aciman, o filme conta a história de Elio (Timothée Chalamet), um jovem filho de um professor acadêmico especialista em cultura (Michael Stuhlbarg). Todos os anos o seu pai convida um de seus alunos para passar as férias na casa de campo da família, na Itália. É aí onde Elio conhece Oliver (Armie Hammer), com quem começa uma grande amizade, e aos poucos a amizade vai se transformando em algo muito maior.

A narrativa construída por Luca Guadagnino é bastante interessante. Apesar de muito longa (o filme poderia tranquilamente ter meia hora a menos), a narrativa mostra uma evolução surpreendente dos personagens do início para o final do filme, especialmente Elio.

Muitos podem rotular um filme como um “romance gay”, mas isso é reduzir o filme a um patamar que ele não merece. Luca Guadagnino vai muito além do que mostrar apenas um romance gay. Me Chame Pelo Seu Nome é um filme acima de tudo sobre experiências, sensações, sentimentos e descobertas. E o modo como o diretor mostra isso em tela é de uma sensibilidade absurda. Acompanhamos Elio ter sua experiência sexual com uma amiga para só depois vermos uma cena de sexo entre ele e Oliver. É o personagem descobrindo o que o seu corpo necessita. É interessante ver que na cena de sexo com a amiga, os personagens ficam no canto, enquanto um vazio toma conta do restante da tela, já na cena entre ele e Oliver, os dois tomam conta da tela por completo.

A montagem do filme é um problema, porque em momento nenhum você tem a percepção das férias passando. Existe apenas uma menção já no final, quando Oliver diz que vai embora “amanhã”. Já a trilha sonora merece destaque, leve quando tem que ser e pesada quando o garoto está agoniado com alguma situação. Perfeita.

Agora o que falar de Timothée Chalamet? Até a metade do filme com certeza você vai se perguntar “Porque esse cara tá sendo indicado a todas as premiações?”. Mas da metade para o final, o garoto começa a dar um show. Atrevido quando tem que ser, e sentimental sem cair no clichê. A cena dos créditos em que ele chora ali, sozinho, calado, é fantástica. Diga-se de passagem, essa cena se veio após duas outras grandes cenas, um diálogo ao telefone com Oliver e um diálogo com o pai. Esse diálogo com o pai, inclusive, é a melhor cena do filme. Que sensibilidade do ator Michael Stuhlbarg. Esse diálogo é um tapa na cara da sociedade que ainda sim tem preconceito. Armie Hammer também está ótimo no papel, ele cai bem naquele tipo atlético, bonitão, inteligente.

Me Chame Pelo Seu Nome é um daqueles filmes que merecem ser visto, para termos uma percepção maior de assuntos tão em alta na nossa sociedade hoje em dia, e sim, serve como aprendizado.

Call Me By Your Name, 2017. Direção: Luca Guadagnino. Com: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Stuhlbarg, Esther Garrel, Peter Spears. 132 Min. Drama.

Cinema: O Destino de Uma Nação

Mais um retrato da Segunda Guerra Mundial chega aos cinemas. O Destino de Uma Nação é o mais novo filme de época do diretor Joe Wright, famoso pelos longas Desejo e Reparação, Orgulho e Preconceito e Anna Karenina.

O roteiro se passa em uma fase decisiva da Segunda Guerra Mundial, em que Hitler avançou e já dominou boa parte da Europa e está prestes a atacar 300 mil soldados ingleses em Dunkirk (isso mesmo, tema que Christopher Nolan abordou recentemente em Dunkirk). A Inglaterra temendo o pior, perde o seu Primeiro Ministro que não aguenta a pressão, e este dá lugar para Winston Churchill (Gary Oldman).

Acompanhamos então as decisões políticas de Churchill, que sofre uma pressão da Câmara que quer um acordo com Hitler, enquanto ele não vê com bons olhos um possível acordo e pretende combater de frente o ditador alemão.

O Destino de Uma Nação se completa perfeitamente ao Dunkirk de Christopher Nolan. Se ouve reclamação que o filme de Nolan não tinha roteiro, podemos pegar O Destino de Uma Nação como base. É como se este fosse a parte teórica do acontecido e Dunkirk ficasse com a parte prática. Por exemplo, o que será que foi dito para que vários barcos civis viessem resgatar os quase 300 mil soldados ingleses? Isso é contado e mostrado em O Destino de Uma Nação.

Joe Wright entrega mais uma vez um belíssimo filme de época. Aqui, com o diretor de fotografia Bruno Delbonnel, eles entregam um trabalho de um esmero quase que irretocável. Em certos momentos, quando as coisas não estão favoráveis a Churchill, a câmera fecha, mostrando que o personagem está encurralado. Planos gerais são mostrados várias vezes para termos noção dos ambientes. Um primor de cinematografia. O diretor trabalha muito bem também o som. Em uma cena no discurso de Churchill, você consegue escutar apenas aquele barulhinho que lâmpadas antigas faziam, sem falar que até o silêncio é bem trabalhado no longa. Geralmente o silêncio vinha acompanhado logo após uma cena barulhenta, e assim você conseguia sentir o impacto do discurso ou diálogo que acabava de ser dito.

Agora, o que falar da atuação arrebatadora de Gary Oldman? Ele simplesmente some no personagem. No decorrer do filme, você esquece que é ele que está lá, você imagina que é o próprio Churchill de corpo e alma. A maquiagem está impressionante, tão impressionante que Joe Wright não tem medo de, em várias vezes durante o filme, fazer questão de mostrar planos detalhe no rosto de Gary Oldman para mostrar a perfeição na maquiagem. Mas vale ressaltar que a atuação de Gary vai muito além do que a maquiagem. Ele cria vozes diferentes para momentos mais leves, momentos mais tensos, seu modo de andar, sua corcunda, seus trejeitos. Uma atuação soberba que merece cada prêmio que o ator está ganhando e que deve ser coroada com o mais importante, o Oscar.

O roteiro só peca um pouco por romantizar demais o personagem de Churchill. Cenas forçadas para mostrar que ele era uma pessoa do povo quando na realidade a história é que ele presava por um povo mais superior (não tanto quanto Hitler, vale ressaltar, mas sim, ele tinha suas preferências) poderiam ter ficado de fora.

O Destino de Uma Nação é um recorte histórico dos mais importantes da Segunda Guerra Mundial, apesar de muita história, o filme em nenhum momento é enfadonho, muito pelo contrário, mais e mais queremos saber daquela história. Com uma atuação brilhante de Gary Oldman, esse filme merece ser descoberto!

Darkest Hour, 2017. Direção: Joe Wright. Com: Gary Oldman, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Lily James, Ronald Pickup, Stephen Dillane, Samuel West. 125 Min. Drama.

Cinema: Viva – A Vida é Uma Festa

O ano de 2018 começou com o pé direito no quesito cinematográfico. Entre os destaque está o filme Viva – A Vida é Uma Festa (Coco – nome original – que significa bisavô em espanhol), nova animação dos estúdios Disney/Pixar. E não poderíamos esperar menos de uma produtora que desde 1995 (com Toy Story) vêm trazendo para as telinhas histórias maravilhosas, lindas, com personagens marcantes e efeitos visuais nunca usado em outras animações.

O longa trás para nós um pouco da cultura mexicana, mostrando um feriado muito importante para o México: “El día de los muertos”. Para quem não sabe, é uma data de origem indígena em que eles acreditam que os mortos retornam para visitar seus parentes e estes preparam comidas, presentes, flores e festa para recepcionar seus entes que já partiram para outro mundo.

É nessa data tão esperada que se passa o enredo do filme, Miguel é um garoto de 12 anos que vem de uma família de sapateiros, mas seu grande sonho é se tornar um cantor famoso igual ao seu grande ídolo falecido Ernesto de La Cruz. No entanto, sua família o proíbe de realizar seu grande desejo, pois seu tataravô abandonou a sua esposa e sua filha Inês (bisavó de Miguel) para ingressar no mundo da música, deixando as duas sem nada.

Miguel decide ir contra sua família e se escreve em um festival de música que ocorre no vilarejo no mesmo dia do feriado. Porém, sua avó descobre e quebra o violão do garoto. O menino então tem a ideia de pegar o violão do seu grande ídolo que estava em uma cripta. Nesse momento ocorre um encantamento e Miguel passa a ver os mortos e se torna invisível para os vivos.

Entre as diversas aventuras para retornar para o mundo dos vivos, Miguel reencontra sua família já falecida e é ajudado por Hector, um morto que tudo que quer é poder visitar os vivos no El día de los muertos, mas como ninguém lembra dele, sua passagem é sempre barrada. Os dois entram num acordo para conseguir o que querem: Miguel quer ser abençoado por seu suposto tataravô e poder tocar música e Hector quer que sua foto seja exposta em um altar de lembranças e assim poder visitar o mundo dos vivos.

O roteiro da animação pode parecer previsível em muitos momentos, porém surpreende o público em diversas ocasiões. Apesar do humor presente na obra, o filme possui um tom melancólico, abordando de maneira bastante sutil a questão da Morte. Ao mesmo tempo que encanta arrancando risos, também nos faz derramar muitas lágrimas em vários momentos.

A direção de arte está de parabéns. A cores são bem vivas, a paleta de cor utilizada é bem característica de elementos culturais mexicanos, mas a vibração está na cidade dos mortos, onde tudo adquire uma cor mais forte e diversificada. A fotografia do filme é de grande primor, os desenvolvedores do filme não brincaram em serviço, cada mínimo detalhe é maravilhosamente preparado para a animação. Os planos abertos em que mostram a vila onde os personagens vivos moram é tão bem feito que às vezes se confundem com cenas reais, os detalhes no rosto da bisavó de Miguel também mostram todo o trabalho realista que a equipe visual teve ao desenvolver o projeto do filme. Afinal, não poderíamos esperar menos dos mesmos produtores de Toy Story e Divertida Mente!

Os personagens são bem cativantes, sendo a história de cada um bem abordada e explicada. Mas, sem dúvidas, o grande destaque está para a trilha sonora (sendo esta bastante criticada por muitos por se parecer “Disney” demais), a música principal “Lembre de Mim” faz arrancar lágrimas dos olhos dos mais frios seres humanos.

Viva – A Vida é Uma Festa é um filme sobre perdas, saudades e memória, mas também é uma celebração sobre a vida e lanços familiares, tem uma carga emocional muito grande, embora misture muito bem com uma pitada de humor típica dos filmes da Pixar, deixando o filme com uma leveza apropriada para todas as faixas etárias. Duvido você assistir e não lembrar com enorme carinho de um ente querido! Foi um grande começo de ano para a produtora. Prevejo Oscar vindo aí, vamos conferir!

Remember me, though I have to say goodbye 
Remember me, don’t let it make you cry 
For even if I’m far away, I hold you in my heart 
I sing a secret song to you, each night we are apart 
Remember me, though I have to travel far 
Remember me, each time you hear a sad guitar 
Know that I’m with you, the only way that I can be 
Until you’re in my arms again, remember me…

Coco, 2017. Direção: Lee Unkrich e Adrian Molina. Com as vozes originais de: Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Jaime Camil, Alfonso Arau, Gabriel Iglesias. 105 Min. Animação.

Cinema: O Rei do Show

Uma viagem no tempo e O Rei do Show nos leva ao século 19 para contar a história de um empresário visionário P. T. Barnum que ficou famoso no mundo inteiro apresentando pessoas exóticas em seu circo. Vale ressaltar que o filme do diretor Michel Gracey não é exatamente uma biografia do empresário, mas sim, utiliza fatos da vida do personagem, com liberdade para romancear a história.

O longa mostra P. T. Barnum (Hugh Jackman) indo da pobreza à glória, graças ao sonho de dar uma vida digna a sua esposa (Michelle Williams) e a suas duas filhas. De humilhado pelo sogro, ele consegue vencer na vida, com erros e acertos, adversidades e sonhos, vemos sua trajetória de ascensão social ser contada com números musicais inspiradores.

Apesar de ser um filme gostoso de assistir, O Rei do Show comete alguns erros. O roteiro raso, pouco aprofunda nas histórias dos personagens principais. O filme não perde muito tempo em mostrar o personagem de Hugh Jackman na pobreza, rapidamente seu personagem consegue fazer sucesso. A crise no seu casamento na parte final do longa também não é aprofundada e rapidamente se resolve. O romance entre os personagens de Anne Wheeler (Zendaya) e Phillip Carlyle (Zac Efron) também é pouco aproveitado. O roteiro também peca por não dar um espaço um pouco maior para as pessoas exóticas do circo. Vemos todos em ação na música This Is Me, porém, eles poderiam ter sido mais bem aproveitados. Alguns nem falas no filme possuem.

Hugh Jackman está impecável. Aqui o eterno Wolverine solta a voz como em Os Miseráveis, porém ele faz muito mais e dança como ninguém. Um show de interpretação, carisma e simpatia. Zac Efron e Zendaya também merecem destaque. Zac está bem à vontade dançando e cantando graças aos tempos de High Scholl Music e Zendaya surpreende com sua voz e coreografia. Michelle Williams está um pouco limitada nas canções que executa, mas nada que atrapalhe o filme. Rebecca Ferguson que dá vida à cantora Jenny Lind é a única que foi dublada por uma cantora profissional.

Os efeitos visuais também são um ponto fraco no filme, ainda bem que não são muitos. Desde uma pequena cena onde Hugh Jackman está em um trem no final do filme, onde é nítido o uso de computação, a um efeito muito estranho no anão que faz parte do circo (o efeito utilizado para deixa-lo menor do que já é, acabou ficando estranho, sendo perceptível toda vez que o personagem aparece).

As canções do filme são um show a parte. Desde a abertura com a forte The Greatest Show, passando pela poderosa This Is Me até chegar à inspiradora A Million Dreams. Aqui as canções não são cantadas ao vivo pelos astros, como em Os Miseráveis, porque O Rei do Show foca muito nas coreografias, e realmente seria complicado cantar ao vivo com as danças que tem em cada música, algumas até muito difíceis de executar. Para o bem do filme, todas as coreografias são lindas, e dão um toque a mais de beleza.

O Rei do Show é um musical mais contido se comparado a outros grandes que tivemos nos últimos anos, como Os Miseráveis ou Moulin Rouge. Mas mesmo assim é um filme muito gostoso de se assistir, graças as suas belas canções, danças inspiradoras e uma atuação impressionante de Hugh Jackman, o verdadeiro rei do show.

The Greatest Showman, 2017. Direção: Michael Gracey. Com: Hugh Jackman, Michelle Williams, Zac Efron, Zendaya, Rebecca Ferguson, Austyn Johnson, Cameron Seely, Keala Settle, Sam Humphrey. 105 Min. Drama/Musical.

Cinema: Thor – Ragnarok

Após quatro anos desde o seu segundo filme solo, o Deus do Trovão retorna para uma terceira empreitada em Thor: Ragnarok. Apostando em um jeito bem peculiar, com o estilo de seu diretor, Taika Waititi, o filme está dividindo opiniões.

No filme, após a morte de Odin, Asgard recebe Hela, irmã de Thor, que veio para assumir o trono. Após uma batalha, Thor e Loki acabam indo parar em outro mundo e precisam retornar para evitar a destruição do mundo e do povo de Argard.

O longa precisa ser avaliado em diferentes partes. Se você estiver esperando um filme repleto de ação, vai encontrar, porém, vai se incomodar com as várias (eu disse, várias) cenas de comédia, e em sua grande maioria, comédia pastelão. Mas Thor: Ragnarok foi honesto com o público, pois já apresentava esse tipo de humor nos materiais que eram divulgados. Diferente de Homem de Ferro 3, que entregava um trailer carregado no drama, e quando chegou o filme foi um desastre.

Que todos os filmes da Marvel tem uma pontinha no humor, todos sabemos. Mas aqui está muito exagerado. Em algumas horas chega a ser chato, porque as vezes, logo após uma sequencia de drama, vem uma piada. Algumas são sem graça, e outras totalmente desnecessárias, como em certa cena que eles inserem a palavra “ânus”. Por outro lado, todas as piadas inseridas que envolvem o personagem Hulk funcionam. Aliás, Hulk é um dos destaques do filme.

O filme possui um visual deslumbrante e as cenas de ação feitas de dia, inclusive o clímax final é perfeito. A trilha sonora muitas vezes parece deslocada, apenas em alguns momentos, não em todo o filme. A música “Immigrant Song” de Led Zeppelin é bem utilizada nas cenas de ação, mas é pouco para uma série de filmes que sempre teve uma trilha incidental de muita qualidade.

Chris Hemsworth e Tom Hiddleston continuam com uma química incrível. Chris continua perfeito como Thor e Tom continua entregando um dos personagens mais incríveis da Marvel, Loki. Seu personagem continua aquele tipo dúbio, hora ajuda, hora é vilão. Mas nunca deixa de lado seus interesses. Mark Ruffalo está muito bem como Hulk. Agora um pouco mais controlado, Hulk está muito bem inserido nesse universo de Asgard. Tessa Thompson está incrível como uma guerreira Valquiria. Agora, o principal destaque do filme é Cate Blanchett. Seu visual, por vezes exagerado quando ela está com aqueles chifres, revela uma mulher poderosa, capaz de destruir um item muito importante do herói Thor. De todos os filmes que a Marvel nos entregou, não é exagero dizer que Hela foi a vilã mais poderosa.

Thor: Ragnarok parece meio deslocado do universo Marvel, talvez pelo humor ter passado da conta. Mas o filme é divertido. Mesmo com algumas piadas desnecessárias, o filme entrega uma aventura divertida, mas que não faz muita diferença para o universo que a Marvel cria no cinema.

Thor: Ragnarok, 2017. Direção: Taika Waititi. Com: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Jeff Goldblum, Tessa Thompson, Karl Urban, Mark Ruffalo, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch. 130 Min. Ação.