Cinema: Mãe!

Darren Aronofsky é daqueles diretores que quando despontam em Hollywood chamam muita atenção. Da mesma geração de M. Night Shyamalan, Darren chamou a atenção logo em sua estreia com o seu estilo de filmagem em Pi. Em seguida realizou um de seus melhores filmes, Requiem Para um Sonho. Passando por Fonte da Vida e O Lutador, o diretor chegou ao ápice com Cisne Negro, filme que rendeu o Oscar de Melhor Atriz para Natalie Portman. Noé, no entanto, dividiu muito a opinião das pessoas, aliás, dividir a opinião das pessoas é uma das marcas das obras de Aronofsky.

Aqui em Mãe!, Darren conta a história de uma jovem esposa (Jennifer Lawrence) que passa seus dias restaurando a enorme casa que vive com seu marido (Javier Bardem), um escritor que tenta reencontrar a inspiração para voltar a escrever poemas. Os dias calmos e tranquilos ficam diferentes quando estranhos começam a chegar a casa e o marido os deixa ficarem, mesmo com a rejeição da esposa.

O tom de mistério que reina nos trabalhos de Aronofsky já começa nos nomes dos personagens. Seus personagens não possuem nomes próprios. Javier Bardem é Ele e Jennifer Lawrence é Mãe, Ed Harris é Homem e Michelle Pfeiffer é Mulher. Dito isso já podemos imaginar que adentraremos em um enorme quebra-cabeça recheado de metáforas e referências que exigirá muita atenção por parte do público para o entendimento (ou não) do filme.

A personagem de Jennifer Lawrence interpreta uma mulher à moda antiga. Muito ligada a casa, ela passa seus dias se dedicando a ela e ao marido. Uma mulher submissa a ele, que não tem muita voz para dar opiniões. Isso fica nítido quando desconhecidos chegam a casa e contra a sua vontade, o marido permite eles ficarem.

Javier Bardem é um escritor que vive uma crise na sua escrita. Fez muito sucesso no passado, porém, há anos não consegue escrever nada. A chegada dos desconhecidos em sua residência e um acontecimento na vida do casal vai aos poucos fazendo a sua inspiração voltar.

Em nenhum momento Darren Aronofsky vai dando respostas. O filme inteiro é um emaranhado de informações que faz o público se perguntar muitas vezes, “o que está acontecendo?”. É muito complicado falar sobre Mãe! sem entrar nos spoilers. Porém, é importante falar que o filme vai levando a sua história para uma situação insustentável. O que começa com um estranho chegando, termina com a casa habitada por dezenas de estranhos. O que pode gerar uma sensação de incômodo no espectador, por se compadecer com a personagem Mãe.

Aronofsky vai utilizando mistério e códigos para contar uma história simples. É como se o diretor brincasse de um jogo de adivinhação com o seu público. As metáforas são importantes, porém, nem tão simples de ser respondidas. O maior mérito de Darren é fazer seu filme continuar após a sessão. Amando ou odiando o filme, é impossível você não sair conversando, discutindo e debatendo sobre o filme.

Jennifer Lawrence entrega a sua melhor interpretação na carreira, principalmente na parte final do filme. Sua incrível interpretação já é forte candidata a estar concorrendo ao Oscar de Melhor Atriz, tamanha a sua dedicação e perfeição. Javier Bardem está impecável como sempre. E consegue empregar feições que são muito importantes em cena, principalmente para um filme que tem sua história contada com a ausência de trilha sonora. Aqui o silêncio é muito importante e Darren Aronofsky trabalha muito bem o silêncio.

O longa pode fazer você ter diversos entendimentos. Os enigmas de Aronofsky seriam ligados a uma história sobre fama, bíblica ou sobre a mente humana mergulhada em uma depressão? Mãe! é um filme que precisa ser descoberto para que você possa tirar as suas próprias conclusões.

Mother! 2017. Direção: Darren Aronofsky. Com: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson. 121 Min. Drama.

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Cinema: Bingo – O Rei das Manhãs

“Alô criançada, o Bozo chegou! Trazendo alegria pra você e o vovô!”. Bozo chegou aos cinemas, mas virou Bingo. A cinebiografia de uma das pessoas que encarnaram o palhaço apresentador de programa infantil na década de 80 é a estreia do montador Daniel Rezende como diretor.

Bingo: O Rei das Manhãs conta a história de Arlindo Barreto que viveu o auge da carreira como o palhaço Bozo. Antes, ator de pornochanchadas, Arlindo tenta subir de patamar na carreira artística. Ao ir a um teste para uma novela, ele percebe que também estavam testando um palhaço que apresentaria um programa infantil. E é aí que a sua carreira decola e muda por completo.

Devido a direitos autorais, vale ressaltar que algumas coisas no longa tiveram que mudar de nome. Arlindo Barreto virou Augusto, Bozo virou Bingo, Globo virou Mundial, SBT virou TVP e Xuxa virou Lulu.

O filme não demora muito a nos mostrar que Augusto tem uma personalidade forte. Logo quando encarna o palhaço, ele mostra relutância a seguir o roteiro americano do programa, pois Bingo é exportado dos Estados Unidos. Devido a baixa audiência no início, ele logo começa a improvisar, o que faz o programa virar sucesso e líder de audiência. Mas uma cláusula no contrato o impede de revelar a sua identidade, o que acaba o frustrando.

Um dos maiores acertos do longa é o roteiro de Luiz Bolognesi e a direção de Daniel Rezende. O filme equilibra muito bem a glória e o fundo do poço, mostrando gradativamente cada fase. Seja por meio das drogas, da bebida ou do sexo, Augusto vai se deteriorando por todos os lados.

O roteiro excelente mostra um contraste entre o palhaço querido por todas as crianças do país, enquanto o seu intérprete é um pai ausente. Isso gera uma das melhores cenas do filme, quando Bingo recebe no seu programa uma ligação do seu filho.

Daniel Rezende trabalha muito bem os closes nos personagens além de conseguir filmar cenas perfeitas, como uma quando Augusto percebe que perdeu o papel de Bingo e ele deixa o estúdio. Nessa hora a câmera vira e as luzes se apagam enquanto ele anda. Perfeito. Em algumas cenas é possível ver certa inspiração em filmes como Birdman e O Mentiroso, e isso só vem a ressaltar cada vez mais a qualidade do longa.

Vladimir Brichta não era a primeira escolha para Bingo. Devido a conflitos de agenda, Wagner Moura que viveria o palhaço acabou indicando Vladimir, e a escolha não poderia ser melhor. Brichta ENCARNA a persona de Bingo como ninguém. Ele nos entrega um personagem com uma mistura de loucura e anarquia, o que era a cara dos anos 80. Em um mundo politicamente correto nos dias de hoje, ver um palhaço apresentador de programa infantil falando palavrões no ar e se esfregando, literalmente, na personagem de Gretchen é muita anarquia. A atuação de Vladimir Brichta é tão perfeita que em alguns momentos é impossível você não lembrar de Heath Ledger como o Coringa. Não estou comparando os dois, estou falando que ele nos faz lembrar e isso é um ponto muito positivo. É aí que percebemos como ele se entregou para o papel.

O longa conta ainda com o talento de Leandra Leal, sempre linda e competente, aqui ela encarna a diretora do programa de Bingo. Destaque também para Cauã Martins que faz Gabriel, o filho de Augusto. O garoto consegue emocionar no momento certo. Também temos a participação de Domingos Montagner que interpretou um palhaço com o qual Augusto faz um laboratório para aprender mais sobre como deve ser um palhaço.

A trilha sonora é um caso a parte. Os temas passeiam desde clássicos do rock nacional como Televisão, dos Titãs, até chegar a uma cena antológica de um dos encerramentos do programa de Bingo com Serão Extra, e aquele refrão “Eu fui dar mamãe… (foi dar mamãe)” com aquele palco repleto de crianças pulando animadas. As trilhas incidentais ainda conseguem ser melhores, pois retratam perfeitamente cada momento da vida de Augusto, e você vai percebendo sua vida mudando conforme a trilha muda de tom.

Bingo: O Rei das Manhãs já consegue um lugar entre um dos melhores filmes nacionais da década. É uma cinebiografia com qualidade, um filme que nos deixa com vontade de descobrir cada vez mais sobre o personagem. Um acerto e tanto para o Cinema Nacional.

 

 

 

Bingo: O Rei das Manhãs, 2017. Direção: Daniel Rezende. Com: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Soren Hellerup, Emanuelle Araújo, Pedro Bial, Cauã Martins, Domingos Montagner, Tainá Müller. 113 Min. Drama.

Cinema: Como Eu Era Antes de Você

Como Eu Era Antes de Você

Histórias originais estão cada vez mais escassas em Hollywood. Remakes, adaptações de livros e blockbusters invadem cada vez mais as salas de cinema. Como Eu Era Antes de Você apresenta elementos que já vimos em outros filmes, como A Teoria de Tudo e Meu Pé Esquerdo, além do francês, Intocáveis, porém, muito bem conduzido e executado pela dupla de atores que movem o longa metragem.

O filme nos apresenta Louisa Clark, interpretada por Emilia Clarke, do seriado Game of Thrones. Uma jovem sem muitas pretensões grandiosas em sua vida, que vive enfrentando problemas financeiros, mas que está sempre com um sorriso cativante no rosto. Suas roupas bregas e extravagantes mostram como ela é, digamos, um pouco largada neste mundo de aparências. Uma oportunidade de emprego surge para ela, cuidar do tetraplégico Will, interpretado por Sam Caflin, da Saga Jogos Vorazes.

Um dos fatores mais interessantes do filme é o contraste entre os dois personagens. Enquanto Louisa sempre está sorridente, Will é sempre sarcástico devido às circunstâncias que a vida lhe trouxe. O clima entre os dois que é de rejeição no início, vai deliciosamente se transformando durante o decorrer da história para algo maior. Louisa vai perceber que a sua tarefa é muito maior do que cuidar de Will, e o amor que nasce dentro dela é lindo, tamanha simplicidade e humildade que seu personagem carrega.

Com roteiro de Jojo Moyes que também é a autora do livro que deu origem ao filme e dirigido por Thea Sharrock, o longa consegue transitar muito bem entre o drama, a comédia e o romance. Esse equilíbrio é fundamental para o andamento da história, que nos faz refletir o quanto é importante viver a vida intensamente, ao lado de pessoas que realmente querem nos ver bem. O bom do filme é que ele foca mais nisso precisamente, do que no romance entre os dois personagens. A diretora consegue criar cenas lindas entre eles, em especial uma cena de dança, que de tão singela, é emocionante.

Para viver Louisa Clark, uma Emilia Clarke fofa e cativante foi escolhida. Apresentada com roupas estranhas, a personagem logo conquista a nossa atenção pelo seu modo de viver. Sempre alegre, apesar das dificuldades, Emilia foi a escolha perfeita para viver a personagem. Ela é a alma do filme. Sam Caflin, que vive Will, também está muito bem em seu papel. Impossibilitado pela deficiência, o ator coloca muito bem em cena as características do personagem. Merece destaque também Janet McTeer e Charles Dance que interpretam os pais de Will. O filme ainda conta com Matthew Lewis, o Neville da Saga Harry Potter, aqui interpretando o namorado chato e sem graça de Louisa.

A linda trilha sonora ajuda a conduzir o filme. Músicas doces e arrebatadoras, como uma canção da Adele, trás emoção no momento certo, sem parecer piegas.

Não é original. Possui clichês? Sim. Mas são muito bem utilizados no filme. Como Eu Era Antes de Você tem a principal virtude do cinema, que é emocionar. E como diria Lisbela, “A graça não é saber o que acontece, é saber como acontece e quando acontece”.

Nota 9

Me Before You, 2016. Direção: Thea Sharrock. Com: Sam Caflin, Emilia Clarke, Vanessa Kirby, Pablo Raybould, Jenna Coleman, Matthew Lewis, Janet McTeer, Charles Dance. 110 Min. Drama.

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Cinema: O Quarto de Jack

O Quarto de Jack

Baseado no livro da escritora Emma Donoghue, O Quarto de Jack é bastante desafiador para quem o assiste. Claustrofóbico por boa parte da trama se passar dentro de um quarto, e com uma linha narrativa a partir do ponto de vista de uma criança de cinco anos, o longa acabou sendo uma das grandes surpresas do ano, revelando uma história forte e arrebatadora.

O filme conta a história de Joy (Brie Larson) que vive com seu filho Jack (Jacob Tremblay) dentro de um quarto, aprisionados. Os dois são mantidos em cárcere privado pelo homem que sequestrou Joy quando ela tinha 17 anos. Sete anos se passaram, mas ambos continuam sem poder ver o mundo a sua volta. Enclausurados, eles só veem a luz do dia através de uma claraboia. O pequeno Jack não conhece o mundo fora do quarto, até os quatro anos ele nem sabia que o nosso mundo existia. Mas sua coragem é fundamental para que ambos consigam escapar do quarto depois de um plano.

Fora do quarto é como se o filme fosse uma poesia. A primeira vez que Jack vê o céu é emocionante. A forma como o garoto contempla aquela imensidão azul, combinada com a trilha sonora, é impossível segurar as lágrimas. A partir desta cena, tudo é novidade para Jack, e aí entra em cena a delicadeza da direção de Lenny Abrahamson. O diretor conduz com perfeição tudo ao redor de Jack, e a forma de focar a câmera no olhar forte do garoto é excepcional.  O diretor também merece elogios por tocar de forma tão suave em um tema tão espinhoso como é o cárcere privado.

Quando tudo parecia resolvido e os dois viveriam felizes para sempre fora do quarto, é aí que o filme guardava para a sua metade final o show de Brie Larson, que recentemente ganhou merecidamente o Oscar de Melhor Atriz por sua performance como Joy. Longe do quarto, podemos perceber problemas entre Joy e os pais, e podemos perceber o quanto durona a vida a transformou. Estamos lidando com uma personagem que teve seu psicológico levado ao extremo, que passou por muita coisa e que mesmo assim conseguiu sobreviver a todos os obstáculos que apareciam em sua vida.

Brie Larson arrebenta em seu papel.  As expressões exercidas por ela durante toda a trama não deixam dúvidas de que o Oscar foi parar em boas mãos. A forte atuação de Brie anda lado a lado com a cativante e a apaixonante atuação do pequeno Jacob Tremblay. Olha, fazia muito tempo que um ser tão pequenino não fazia chorar, este que vos escreve agora. Você se emociona com tudo o que acontece ao seu redor, seja a falta de um bolo com velas, ou todas as emoções que ele transmite sem falar nada, ao ver ou sentir algo pela primeira vez. Pequeno no tamanho, mas com um coração gigante. Jacob exala emoção durante todo o filme. É um novo ator mirim para ficarmos de olho. Joan Allen e William H. Macy completam o elenco como os avós do garoto.

O roteiro do filme deixa algumas situações em aberto. O que aconteceu com o rapaz que mantinha Joy presa. Ele foi preso? Está foragido? Não sabemos. O personagem de William H. Macy também some da trama, após uma forte cena entre ele e Joy. Situações como essas, o filme não amarrou, mas nada que prejudique o resultado final deste maravilhoso longa.

O Quarto de Jack deve emocionar todos. Seja pela força da personagem de Brie Larson ou o carisma do pequeno Jacob. E após uma sessão tão emocionante, o que podemos fazer é nos despedir de Brie e Jacob com simples “tchau”.

Nota 9

Room, 2015. Direção: Lenny Abrahamson. Com: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Bridgers, Wendy Crewson, Joan Allen, William H. Macy, Amanda Brugel, Joe Pingue. 118 Min. Drama.

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Cinema: Brooklin

Brooklin

Esqueça todos aqueles filmes de romance melosos descartáveis, onde os protagonistas apenas tentam ficar uns com os outros sem haver escolhas e decisões importantes a serem tomadas. Brooklin vai muito além do apenas conquistar a pessoa amada. O filme chega aos cinemas repleto de qualidades e nos leva a uma verdadeira história de amor.

No longa somos guiados pela protagonista Saoirse Ronan. A garotinha que vimos em Desejo e Reparação e Um Olhar do Paraíso cresceu, assim como o seu talento. Aqui em Brooklin ela dá um show de atuação, fazendo por merecer a sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz. No filme, a personagem de Saoirse, Eilis Lacey, deixa a sua mãe, irmã e terra natal, a Irlanda, para trás e viaja para os Estados Unidos no início dos anos 50, buscando ter uma vida melhor. Apesar de já ter um emprego, que o Padre Father Flood, vivido por Jim Broadbent, conseguiu, o começo da sua estadia na América é complicado. Eilis sente saudade da família, amigos e da Irlanda, essa saudade é um pouco amenizada graças às cartas que ela troca com a irmã. Porém, não demora muito para o destino de Eilis mudar ao conhecer o jovem italiano Tony Fiorello (Emory Cohen).

Os dois se apaixonam e logo começam a paquerar. O termo é antigo, mas lembre-se, estamos falando de um filme que se passa no início dos anos 50. A trajetória de romance dos dois é lindamente conduzida pelo diretor John Crownley, que nos emociona por diversas vezes com cenas do casal. Com o romance, Eilis fica mais segura de viver na América, e até começa a render mais no trabalho e nos estudos. Até que, após devido a uma fatalidade, ela é obrigada a voltar à Irlanda e passar um tempo com a mãe e deixar para trás por um instante o seu amor. Chegando à Irlanda, a nossa protagonista começa a viver uma série de conflitos dentro dela.

Talvez o ponto chave para Brooklin ter dado tanto certo seja o fato dos conflitos da personagem se passar em dois países. Presente de um lado está o passado e futuro do outro. Aparentemente um é mais fácil de escolher. Mas nem sempre o que é mais fácil é melhor, e nossa protagonista tem que escolher o que ela quer para a vida dela.

É a partir daí que Saoirse Ronan começa a dar um show. A atriz consegue passar uma veracidade monstruosa com tudo o que acontece ao redor dela. O medo de ir para um país novo; de se apaixonar; à volta para casa e deixar o amado para trás; e o principal conflito que eu não contarei aqui para não dar spoiler. Mas conseguimos sentir tudo o que sua personagem vive. Saoirse tem uma atuação fantástica. Brooklin é um filme que emociona e que em muitas cenas você vai ficar com os olhos marejados por tudo o que acontece com Eilis.

Além se Saoirse Ronan, o ator Emory Cohen, o italiano que ela se apaixona está ótimo em cena. O casal deixa transparecer a química em cenas doces e leves, e logo de cara somos pegues torcendo para que eles fiquem juntos. A sempre ótima Julie Walters também rouba a cena com a sua personagem Sra. Kehoe, a dona da pensão onde Eilis vai viver quando chega à América. E fiquem de olho também no garotinho que interpreta o irmão de Tony, o menino tem carisma.

O filme ainda tem detalhes técnicos como figurino, edição e direção de arte feitos com muito cuidado, tudo criado perfeitamente para contribuir com a história. A trilha sonora é tão linda e delicada como o romance de Eilis e Tony.

Brooklin fica marcado por não ser aquele romance água com açúcar. O filme resgata aquela alma do cinema clássico das décadas passadas. Consegue nos emocionar e nos faz refletir o quanto é importante arriscarmos na vida.

Nota 10

Brooklyn, 2015. Direção: John Crowley. Saoirse Ronan, Emory Cohen, Domhnall Gleeson, Jim Broadbent, Julie Walters, Jessica Paré, Fiona Glascott, Emily Bett Rickards. 111 Min. Drama.

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Cinema: O Regresso

O Regresso

O cinema tem o dom de nos fazer aproveitar cada filme de um jeito diferente. Muito além de fazer rir ou chorar, existem filmes que quando saímos da sessão nos fazem perceber que acabamos de passar por uma “experiência”. E filmes que causam essa “experiência” são raros. Para nossa sorte, O Regresso estrelado por Leonardo DiCaprio e dirigido por Alejandro Gonzáles Iñárritu é um desses filmes.

Baseado em fatos reais, Leonardo DiCaprio interpreta Hugh Glass, um guia para caçadores de animais que desbravam uma região bastante perigosa dos Estados Unidos, no longínquo ano de 1820. Hugh Glass é atacado ferozmente por um enorme urso, que o deixa mortalmente ferido. Glass acaba sendo deixado para trás pelo seu colega John Fitzgerald, interpretado por Tom Hard. E é com esse enredo que a “experiência” cinematográfica que envolve o extinto de sobrevivência e desejo de vingança começa.

Interessante analisar os últimos trabalhos de Alejandro Gonzáles Iñárritu. Ano passado o diretor venceu o Oscar por Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), filmando de maneira magistral praticamente em um plano sequência. Lógico que é impossível se filmar com apenas um plano sequência, mas o trabalho do diretor aliado com a destreza de Stephen Mirrione, que montou o filme, nos deu esta impressão. Aqui em O Regresso, o diretor resolveu filmar com luz natural, um novo desafio para Iñárritu e Mirrione. E o resultado é simplesmente brilhante. O diretor aproveita como poucos a beleza do local, e nos faz contemplar paisagens belíssimas. O trabalho do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, vencedor duas vezes do Oscar por Birdman e Gravidade, foi genial. A beleza das paisagens com o toque da luz natural faz do filme um dos mais belos da história. Em certos momentos o longa nos faz lembrar de filmes como Árvore da Vida e Gladiador, graças a algumas cenas que remetem a eles. Com certeza O Regresso será sempre lembrado, tamanho a sua beleza.

Leonardo DiCaprio consegue a sua quinta indicação ao Oscar. Em O Lobo de Wall Street com uma atuação impecável ele passou perto, mas não levou. Em O Regresso, o ator se despe de seu rosto bonito, com cabelos e barba grandes, e mortalmente ferido após o ataque do urso. DiCaprio está totalmente destruído, e a Academia do Oscar ama quando um ator está assim, por isso ele é forte candidato a ganhar a sua primeira estatueta dourada. A sua atuação é uma das coisas mais poderosas que o cinema já viu. Cada close de Iñárritu em seu rosto, mostra a dedicação do ator em compor um papel difícil, mas que só um ator com a sua qualidade poderia interpretá-lo tão bem. DiCaprio conquista o público com uma atuação arrebatadora, o que deve fazer ele ganhar finalmente o Oscar. Outro destaque do filme é Tom Hardy. Em um personagem bastante complexos, Hardy consegue nos entregar um homem cheio de medos, mas que coloca seus objetivos sempre a frente, não deixando o medo transparecer. É um personagem composto com muito cuidado, olhar e ações se destacam em sua atuação.

Alejandro Gonzáles Iñárritu se firma como um dos grandes nomes do cinema, e sua maneira de filmar nos deixa ansiosos por seus próximos trabalhos. Brilhante em Birdman e estupendo em O Regresso, o diretor nos entrega cada vez mais trabalhos primorosos. A veracidade das cenas em O Regresso, nos deixa boquiabertos em vários momentos. Sejam cenas envolvendo flechas, facadas, ou o impressionante ataque do urso, o modo do diretor filmar sem cortar o plano sequência é de se perguntar: Como ele consegue isso? Porque chega a assustar a veracidade imposta nas cenas de ação. Por isso o cinema é tão lindo e mágico, graças a gênios como Iñárritu.

Impressionante. Essa palavra define bem O Regresso. Um dos mais belos filmes das últimas décadas. Assista e aproveite uma das grandes experiências em termo de luta de sobrevivência.

Nota 10

The Revenant, 2015. Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu. Com: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Paul Anderson, Kristoffer Joner, Joshua Burge, Christopher Rosamund. 156 Min. Drama.

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Cinema: Creed – Nascido Para Lutar

Creed - Nascido Para Lutar

Após seis filmes e a idade pesando nas costas de Sylvester Stallone, a pergunta que todos faziam era: Creed: Nascido Para Lutar seria realmente necessário? A pergunta ficava muito mais intrigante, principalmente depois do ótimo sexto filme, que parecia ter encerrado a franquia Rocky. Para alegria dos fãs do clássico personagem, este novo filme é uma grande homenagem a toda a saga, e porque não dizer, que também pode significar um rito de passagem.

O filme começa com uma briga de crianças em um orfanato. Logo descobrimos que uma das crianças envolvidas é Adonis Creed, filho do lendário Apollo Creed, rival e grande amigo de Rocky Balboa. Adonis é filho de um caso que Apollo teve fora do casamento. O garoto não conheceu o pai, que morreu em uma luta. A viúva de Apollo resgata o menino do orfanato, participa do crescimento dele, consegue um emprego, porém, o boxe está em suas veias, e o jovem começa a praticar boxe sozinho, preferindo não carregar o o nome da família, assim, lutará para vencer na vida, sem depender do sobrenome do pai.

Rocky Balboa surge na história quando Adonis decide entrar com tudo no mundo das lutas. Após abandonar o emprego, e a casa em que cresceu, Adonis sabendo de todo o histórico passado do pai, vai procurar Balboa para pedir que ele o treine. De início Rocky reluta no pedido. Sabe que a idade o castiga, porém, acaba aceitando o pedido do garoto e passa a treiná-lo.

A partir daí, uma série de clichês da franquia começam a ser utilizados, mas diga-se de passagem, muito bem utilizados. Cenas de treinamento acelerados, ótimas cenas de luta, discursos de motivação de Balboa, tudo está lá, e muito bem posicionado. O diretor Ryan Coogler utiliza de maneira estupenda todos os elementos que ficaram marcados na franquia. E ainda vai criando um caminho para Adonis Creed ter algumas continuações em outros filmes. Como eu falei no início, o filme serve como um rito de passagem. E isso fica nítido em vários momentos do longa. Rocky Balboa já fez muito pelo cinema, e agradecemos muito por isso.

Uma coisa interessante ao longo do filme está relacionada ao tema clássico do personagem Rocky. Eu que escrevo estas linhas, como fã da franquia, não via a hora de escutá-lo. Porém, o tempo foi passando, e nada do tema clássico. Isso anda muito junto ao fato do personagem de Adonis não querer o sobrenome do pai. Ele quer vencer na vida com suas próprias forças. Ou seja, para que tocar o tema clássico, se nem no título aparece o nome de Balboa? Ao pensar dessa forma, percebi que fazia total sentido a música tema dos filmes anteriores não estar presente. Durante todo o longa, um fragmento da música toca, que é durante um certo momento da luta principal de Adonis, mas que faz um sentido espetacular para a cena e para a história. É um daqueles raros momentos que você percebe que o diretor estava iluminado para poder criá-lo.

O roteiro tem algumas falhas, como o rápido envolvimento entre Adonis e sua vizinha, que logo estão namorando. O filme não se preocupa em desenvolver a relação. Talvez essa seja a única falha de um roteiro que sabe emocionar, fazer rir, vibrar e arrancar uma lágrima no momento certo. Sylvester Stallone e Michael B. Jordan merecem aplausos e mais aplausos devido as suas grandes atuações. Michael assumiu como ninguém o espírito Rocky de ser.

Creed: Nascido Para Lutar pode ter sido um encerramento para o personagem de Rocky Balboa. Caso seja uma despedida, nos alegra saber que o bom e velho Rocky sempre estará por perto quando precisarmos de uma palavra amiga, uma motivação, alguém que sempre nos fará acreditar em nós mesmos. Alguém que nos ensinará sempre que o certo é um degrau de cada vez.

Nota 9

Creed, 2015. Direção: Ryan Coogler. Com: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Tony Bellew, Ritchie Coster, Graham McTavish. 133 Min. Drama.

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