Cinema: Com Amor, Simon

Com Amor, Simon é um filme mainstream adolescente de estilo convencional que usa todos os clichês do livro no qual ele foi adaptado. Há o vice-diretor nerd, a festa bacana da escola secundária, os pais solidários mas um pouco sem noção, as vozes espirituosas do protagonista, as declarações públicas de amor em frente a toda a escola, todas mantidas juntas por um fluxo de músicas pop cativantes. Mas o uso desses clichês em Com Amor, Simon, representa um ineditismo, porque é a história de uma difícil e muitas vezes divertida marcha de jovens gays para “sair do armário”.

O diretor Greg Berlanti, que dirigiu uma série de programas de sucesso como produtor e roteirista, usa o familiar romance adolescente para contar uma história LGBTQ e, ao fazê-lo, faz com que esses clichês se sintam novos, divertidos e inteligentes. Baseado no romance “Simon Vs. A Agenda Homo Sapiens”, Com Amor, Simon é um ato radicalmente inclusivo.

Como Simon (Nick Robinson) nos diz em sua voz de abertura, ele vive uma vida normal “assim como você”. Ele mora em uma bela casa, tem dois pais de apoio (Jennifer Garner e Josh Duhamel) e uma jovem irmã obcecada com “Top Chef” (Talitha Eliana Bateman). Ele é um bom aluno e participa do Drama Club. Seus melhores amigos são Leah (Katherine Langford ), Nick (Jorge Lendeborg Jr) e Abby ( Alexandra Shipp). Nada está errado, exceto, como Simon diz na narração: “Eu tenho um grande segredo”. Seu segredo é que ele é gay. Ele tem certeza que seus pais ficariam bem com isso e seus amigos também estariam bem. Ele tem medo, de como isso vai mudar tudo, como as pessoas podem percebê-lo de forma diferente. Ele também se ressente de ter que “sair do armário” (o que leva a uma sequência muito engraçada imaginando crianças heterossexuais “saindo do armário”). Por que sou “fora do padrão”, ele pergunta.

Quando alguém com o pseudônimo “Blue” escreve um post em um quadro de mensagens local popular sobre ter medo de ser gay, Simon vai até ele em particular, usando o pseudônimo “Jacques”. Os dois começam uma correspondência, hesitantes no início e depois aumentando de intensidade. A identidade de “Blue” é o grande gancho de Com Amor, Simon, e Berlanti tem muita diversão nos mantendo em suspense. Há muitos candidatos em potencial, e Simon vai de um para o outro, perguntando: “Você é Blue?” Pode ser qualquer um deles. Um dos aspectos mais bonitos de Com Amor, Simon é que a intimidade que floresce entre os dois personagens é baseada no quanto eles se preocupam um com o outro, o quanto eles apoiam a jornada um do outro.

As coisas ficam estranhas quando Martin (Logan Miller), membro do Drama Club, entra em cena. Ele descobre sobre a correspondência secreta de Simon e chantageia Simon para ajudá-lo a conseguir um encontro com Abby, que não quer nada com ele. Simon se torna um marionetista oculto e relutante da paisagem extremamente mutável de vários romances do ensino médio envolvendo Leah, Nick e Abby, pessoas que deveriam ser seus melhores amigos. Suas manipulações levam a uma enorme confusão, sentimentos feridos, caos emocional, com Simon racionalizando tudo para si mesmo, fazendo o que ele tem que fazer para proteger a identidade de Blue. Se Martin revela a correspondência para a escola, como ele ameaça fazer, então Blue será afugentado para sempre. As apostas não poderiam ser maiores.

Berlanti, que também dirigiu Dawson’s Creek e Riverdale, conhece muito bem esse território adolescente. Ele entende as neuroses adolescentes, e se preocupa com a experiência adolescente, suas intensidades, suas profundezas, quão importante é o romance para os adolescentes envolvidos nisso. Há uma cena em que Lea compartilha com Simon como ela sempre se sente como se estivesse do lado de fora olhando para dentro. Ela diz, em uma das muitas linhas maravilhosas do filme, “Eu sou o tipo de pessoa destinada a se importar tanto com uma pessoa”. Isso quase me mata. ” É assim que adolescentes inteligentes e sensíveis falam. As Roteiristas Elizabeth Berger e Isaac Aptaker (cujos créditos compartilhados incluem This Is Us e About a Boy) tem um ótimo ouvido para os ritmos ondulantes da comédia. Com Amor, Simon é cheio de humor – em seus personagens, diálogos e situações – mas não sacrifica a profundidade emocional. Os dois trabalham em conjunto.

Historicamente, as histórias de “sair do armário” nos filmes envolveram seus próprios tipos de clichês: tormento, tragédia, raiva dos pais/sociedade, medo às vezes até da morte. Tais filmes sublinham os perigos de viver em um mundo homofóbico, de estar “fora do armário” em uma atmosfera não apenas hostil, mas mortal. Essas histórias também são importantes e foram avanços na representação. Mas em filmes mainstream, que são exibidos nos multiplex, os personagens gays ainda são, com mais frequência, parceiros para os protagonistas héteros. Filmes recentes como Me Chame Pelo Seu Nome e O Azul é a Cor Mais Quente mostram personagens que não são punidos por sua sexualidade pelo mundo, seus pais, seus colegas. Esses filmes são enormes passos à frente, mas Com Amor, Simon cumpre outro papel – ser um filme mainstream para adolescentes.

Eu não vi o filme em uma sessão de imprensa cercada por críticos. Fui a um cinema de bairro e a empolgação quando as luzes se apagaram era palpável. Não notei nenhuma verificação sub-reptícia de celulares durante o filme, apenas uma energia de engajamento completo. As pessoas falavam de volta para a tela ou ofegavam em compaixão ou uivavam de tanto rir. Quando a paixão anônima de Simon finalmente revelou sua identidade, o público explodiu em gritos e aplausos. Havia uma sensação de liberação catártica na sala de cinema, única na minha experiência.

Em uma cena comovente, a mãe de Simon diz para ele: “Você pode expirar agora, Simon”. Foi o que eu senti na exibição de Com Amor, Simon, e é isso que o filme é: uma expiração há muito esperada.

Love Simon, 2018. Direção: Greg Berlanti. Com: Nick Robinso, Jennifer Garner, Josh Duhamel, Katherine Langford, Alexandra Shipp, Logan Miller, Keiynan Lonsdale, Jorge Lendeborg Jr. 110 Min. Drama.

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Cinema: Eu, Tonya

A geração de hoje em dia pouco ouviu falar da patinadora Tonya Harding. Talentosa, Tonya viu sua difícil carreira tomar rumos problemáticos a mais de vinte anos atrás, pouco antes das Olimpíadas de Inverno de 1994, quando foi acusada de mandar quebrar a perna de sua principal rival.

Margot Robbie que interpreta Tonya Harding comprou os direitos da história que há muito tempo estava esquecida em Hollywood e produziu a história. Acompanhamos Tonya desde os seus primeiros passos na patinação, logo com 3 anos de idade, até culminar no envolvimento do crime, quando a atleta tinha 23 anos. Durante esse tempo, Tonya viveu além do esporte, uma infância e adolescência marcada por abusos, o que deixou marcas na sua personalidade.

Empurrada pela mãe para o ringue de patinação, o esporte foi a única coisa que Tonya sabia fazer na vida. Sem os estudos terminados, mas com um talento enorme, ela foi a primeira patinadora na história a fazer o Axel Triplo, um salto composto por três giros no ar seguido de pisar no gelo já patinando e com os braços abertos. Porém, Tonya não se “encaixava” nos “padrões” que os americanos queriam como representante de seu país no esporte.

Tonya vinha de família pobre, além de ter sido abandonada pelo pai e de sofrer abuso da mãe LaVona Golden (Allison Janney). Quando arranjou um marido, Tonya também era espancada por ele. O foco do filme é no abuso. Tudo isso formou uma mulher de personalidade forte, que não conhecia a felicidade fora dos ringues de patinação. Após uma saída do esporte, ela vê a chance de retornar nas Olimpíadas, porém seus resultados não são bons, e o seu ex-marido que, depois se torna marido de novo, acaba tentando tirar sua concorrente da disputa.

A grande sacada do diretor Craig Gillespie foi desenvolver uma narrativa bastante envolvente com o telespectador. O filme tem um jeito de documentário, sem ser. Craig refaz entrevistas da época, sem trazer imagens antigas, a mesma coisa ele faz com algumas cenas do filme. Se você for atrás de vídeos sobre Tonya Harding, poderá ver como ele foi fiel em coisas simples.

Craig Gillespie também merece destaque nas cenas de patinação. Nessas cenas o trabalho de montagem e fotografia é absurdo de tão perfeito. A câmera patina junto com o que acontece em cena. O movimento de câmera é perfeito ao focar os pés na parte onde a dublê de Margot Robbie atua e a combinação é perfeita ao mostrar a parte de cima do corpo na pirueta final já sendo de Margot.

Outra coisa genial no filme é a quebra da quarta parede (quando os personagens conversam com o público). Aqui vemos várias versões para o ataque a rival de Tonya, com cada personagem dando sua versão. E o fato da quarta parede ser quebrada, deixa o filme mais pessoal, mais próximo da gente. A única coisa que o filme não acerta, é quando a maquiagem tenta deixar Margot Robbie mais jovem. Ela que já é jovem, fica é mais envelhecida ao invés de se parecer com uma menina de 14, 15 anos. Por outro lado, a maquiagem acerta quando precisa deixar Margot Robbie com mais de 40 anos.

Margot Robbie está sensacional. Um personagem complexo, cheio de feridas e que foi composto de forma brilhante pela atriz. Até agora é o papel da vida dela. Agora Allison Janney está simplesmente soberba. Repleta de sarcasmo e humor negro a personagem é o reflexo de quem não está nem aí para a vida. O que refletiu na infância de Tonya, e o fato de não mostrar nenhum pingo de arrependimento deixa a personagem mais fantástica ainda devido a frieza que ela entrega.

Em um determinado momento do filme, Tonya chega para os juízes e pergunta o que falta para ela conseguir notas melhores, já que as notas não condizem com a sua apresentação. É essa mesma pergunta que deveria ter sido feita para os votantes da Acadêmia. O que faltou para Eu, Tonya conseguir mais indicações ao Oscar?

I, Tonya, 2017. Direção: Craig Gillespie. Com: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson, Paul Walter Hauser. 120 Min. Drama.

Cinema: Trama Fantasma

Paul Thomas Anderson é conhecido por apresentar filmes complexos, daqueles em que ou você ama, ou você odeia. Obras como Magnólia, Sangue Negro e Embriagado de Amor mostram a qualidade e o cineasta diferenciado que ele é. Aqui em Trama Fantasma ele entrega um filme simples, e esse é o maior problema de seu novo trabalho.

Em Trama Fantasma acompanhamos a história do estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis). Obcecado pelo seu trabalho, ele é famoso por criar vestidos para pessoas da mais alta sociedade. Em um belo dia, ele conhece Alma (Vicky Krieps) e ela se torna sua musa, perfeita para servir como modelo de seus vestidos.

O grande pecado de Trama Fantasma é não aprofundar a sua história. O roteiro, apesar de certa forma ser misterioso, é raso. A todo momento parece que algo vai acontecer, mas o filme continua parado. A impressão que dá, é que Paul Thomas Anderson escreveu o roteiro com preguiça. O único conflito que acontece é quando Alma se apaixona por Reynolds, mas a forma com que esse amor acontece e o rumo que toma são poucos para um filme de mais de duas horas de projeção.

Outro erro do roteiro é não aprofundar seus personagens. Tudo acontece de maneira muito rápida. Reynolds está em uma cafeteria, Alma vem para atendê-lo, ele a observa e já a chama para sair. E do nada ela já está morando na casa dele. O passado dela em nenhum momento é mostrado, assim como ficamos sabendo pouca coisa do passado de Reynolds.

Daniel Day-Lewis entrega mais uma vez uma atuação magnifica, e de longe é a melhor coisa do filme. Seus olhares falam mais do que palavras. Toda a forma de se portar de um estilista, ele entrega muito bem. Vicky Krieps está muito bem nas cenas ao lado de Day-Lewis. E quem merece destaque também é Lesley Manville, que interpreta a misteriosa Cyril, irmã do personagem de Day-Lewis.

Paul Thomas Anderson mais uma vez entrega um filme tecnicamente perfeito. Sua estética audiovisual sempre é acima da média. A fotografia explora bem os planos detalhes, seja em closes nos personagens, seja na simples costura onde uma agulha perfura um tecido. O som é muito bem trabalhado pelo diretor. Na cena do café da manhã, ele eleva o som dos elementos que compõe a cena para nos incomodar e fazer nos sentir como o personagem de Reynolds.

A trilha sonora é linda, porém um pouco estranha. O filme todo tem uma atmosfera de mistério e, como falei mais acima, a todo o momento você fica esperando algo aparecer. A trilha poderia acompanhar esse estilo do filme, porém ela é leve e parece desencaixada da obra criada por Paul Thomas Anderson.

Esteticamente perfeito, porém com um roteiro que não evolui os personagens. É complicado nos afeiçoar aos personagens de Trama Fantasma com uma história tão rasa em que praticamente nada acontece.

Phantom Thread, 2017. Direção: Paul Thomas Anderson. Com: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville, Sue Clark, Joan Brown, Harriet Leitch. 130 Min. Drama.

Cinema: Três Anúncios Para Um Crime

Podemos citar como características que o cinema provoca a diversão, a emoção e o impacto que uma obra audiovisual pode causar em quem a assiste. Assistir Três Anúncios Para Um Crime nos deixa por diversas vezes com um entalo na garganta, tamanho é o impacto causado por sua história.

O filme conta o enredo de Mildred Hayes (Frances McDormand), uma mãe que teve a sua filha violentada sexualmente e morta de maneira brutal, na pequena cidade de Missouri. O crime segue sem solução sete meses após o ocorrido. Isso motiva a personagem de Mildred a alugar por um ano, três outdoors em uma rodovia para falar sobre o crime, e assim chamar a atenção da polícia.

O filme dirigido e roteirizado por Martin McDonagh (Na Mira do Chefe) possui uma história simples, porém com personagens riquíssimos, o que deixa a história atrativa do início ao fim. O filme tem uma cara de faroeste e bebe muito da fonte dos irmãos Coen. Martin não precisa mostrar flashbacks do estupro e da morte da filha de Mildred para que nós fiquemos compadecidos com a história de Mildred. A construção do personagem de Mildred é tão poderosa que nos apiedamos por ela, pela atuação forte de Frances McDormand.

Frances McDormand vem ganhando todas as premiações do ano e não é por menos. Ela arrebenta no papel, ao entregar uma mãe ferida com a perda da filha e que é capaz de tudo para conseguir justiça. Não sabemos como era Mildred no passado. Porém, por trás de suas rugas está uma mulher que sofreu muito na vida, mas que esse sofrimento a fez ficar mais forte. Apesar de não sabermos do seu passado, o diretor nos joga algumas pistas. Seria Mildred uma mulher e mãe amorosa no passado? O balanço na parte de fora da sua casa, as pantufas que ela calça em certa parte do filme, e o papel de parede de borboleta em seu quarto, mostram como ela era uma mulher diferente. Até mesmo o seu corte de cabelo evidencia isso. Acontecimentos como ser espancada pelo marido e o assassinato da filha a transformaram nessa mulher amargurada. Uma personagem e atuação inesquecível.

Woody Harrelson vive o xerife Bill Willoughby, dos personagens principais o que tem a família mais normal, mas nem por isso deixa de ter seus problemas, já que sofre de uma doença. Woody entrega uma atuação perfeita. Sam Rockwell vive o policial Jason Dixon. Repleto de problemas na infância, ele é meio desmiolado, é violento, torturador. Sam Rockwell entrega um personagem multifacetado e muito, muito complexo. Em certos momentos ele nos faz lembrar o seu personagem Wild Bill em Á Espera de Um Milagre. Personagens fortes e psicologicamente abalados. O mais interessante nesses personagens criados por Martin McDonagh é que eles são muito atraentes. Você gostaria de saber muito sobre o passado deles e de como eles chegaram naquele ponto em que a história começa.

De todos os indicados ao Oscar, Três Anúncios Para Um Crime é o que tem a história mais forte. E sim, é o melhor filme dentre os que concorreram. Violência contra a mulher, racismo, abuso de autoridade, assassinato, estupro. Martin McDonagh costura essa colcha de retalhos com personagens fascinantes em um filme soberbo.

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2017. Direção: Martin McDonagh. Com: Frances McDormand, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Abbie Cornish, Lucas Hedges, Peter Dinklage, John Hawkes, Samara Weaving. 115 Min. Drama.

Cinema: Lady Bird – A Hora de Voar

Sabe aquele filme que é gostoso de assistir? Assim é Lady Bird: A Hora de Voar. O filme é dirigido por Greta Gerwig, o primeiro filme solo que ela dirige. Por curiosidade, o longa é uma autobiografia da própria Greta ao contar os dilemas e transformações de uma adolescente prestes a entrar na vida adulta.

O longa acompanha Christine McPherson “Lady Bird” (Saoirse Ronan), uma garota de 17 anos que está no último ano do colégio e sonha em ir para uma faculdade em outra cidade, pois deseja sair de Sacramento. Já sua mãe é contrária, pois quer que Lady Bird não vá embora. Em meio a esses dilemas, acompanhamos as turras e discussões das duas, coisas típicas de adolescentes que se acham dono do mundo, enquanto os pais tentam lhe mostrar como a vida é realmente lá fora.

Greta Gerwig dirige de maneira singela, o que é muito bom para o tipo de história que ela está contando. Ela não tenta inventar nada, o que torna a sua direção bonita de se ver em tela. Os dramas vividos por Lady Bird, como a perda da virgindade, os amores, as amizades, tudo é mostrado de maneira leve, mas sem deixar de mostrar as consequências. A plateia ri e se emociona com a história da garota que quer encontrar o seu lugar no mundo. E para se encontrar, ela precisa se perder, melhor ainda, ela já começa o filme perdida.

 

Saoirse Ronan mais uma vez entrega uma ótima atuação. A apaixonante personagem de Brooklyn entrega aqui um carisma e simpatia arrebatadores. Suas turras com a mãe Laurie Metcalf vão fazer muitas pessoas se identificarem e se verem nas personagens. Destaque também para a melhor amiga de Lady Bird, interpretada por Beanie Feldstein.

A fotografia do filme viaja por diversas cores em sua paleta. O que mostra como a personagem está passando por muitas mudanças, sejam essas mudanças internas ou externas, com parentes e amigos próximos. O que talvez tenha faltado é o filme ter música para embalar os dramas vividos por Lady Bird.

Seja como for, o longa nos mostra uma direção segura de Greta Gerwig, o que nos deixa animados para futuros trabalhos dessa promissora diretora, que logo em seu primeiro trabalho solo, conseguiu abocanhar uma indicação ao Oscar.

Lady Bird, 2017. Direção: Greta Gerwig. Com: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Lois Smith, Odeya Rush, Jordan Rodrigues. 94 Min. Drama.

Cinema: A Forma da Água

Com certeza A Forma da Água será um dos filmes mais lindos que você verá esse ano, e diria mais, da década. O novo filme de Guillermo del Toro mergulha (literalmente) no tempo para contar a história de uma “princesa sem voz”, que nos apaixona com o quanto é capaz de nos dizer.

O filme se passa na década de 1960, estamos na Guerra Fria e a briga entre Estados Unidos e União Soviética serve de pano de fundo para a história de del Toro. Aqui, ele nos mostra a nossa “princesa sem voz”, Eliza Esposito (Sally Hawkins) que trabalha como faxineira em uma base secreta militar americana. A chegada de um ser aquático à base acaba chamando a atenção de Eliza que, muda, consegue manter uma comunicação com o estranho ser.

A tortura na criatura por um cruel policial Strickland (Michael Shannon) motiva a nossa heroína a encontrar um meio de libertar a misteriosa criatura, e para isso ela conta com a ajuda de sua companheira de trabalho Zelda (Octavia Spencer) e seu melhor amigo, o artista Gilles (Richard Jenkins).

Guillermo del Toro mais uma vez é capaz de mostrar beleza e amor onde parece não existir. Se em O Labirinto do Fauno o diretor conseguiu construir uma linda fábula, aqui ele vai mais além, e nos entrega um filme carregado em poesia, que viaja em várias vertentes cinematográficas. O filme é uma linda homenagem ao cinema, o que falar de cenas como a de Eliza e a criatura dançando em preto e branco, ou em outra cena, onde a criatura está parada diante da tela de um cinema de rua. Guillermo mostra a sua capacidade de ir do cinema pop ao cinema arte através de uma linha narrativa impecável.

O roteiro assinado pelo próprio del Toro, dá voz aos excluídos historicamente na sociedade, aqueles que são cercados por preconceitos. Temos a personagem Eliza que tem uma deficiência, Gilles um homossexual nos anos 60, Zelda uma negra, e a própria criatura que é vista até mesmo por Gilles e Zelda no começo, com certo preconceito. A arrogância e prepotência do personagem de Strickland podem ser vista em uma cena entre ele e as personagens de Eliza e Zelda, na qual ele diz que Deus nos faz a sua imagem e semelhança e ele diz que Deus se parece com ele, e um pouco com Zelda (que além de ser mulher, é negra). Só para citar um exemplo, em outra cena em uma cafeteria, o preconceito é mostrado até de maneira mais forte.

Um dos maiores acertos de del Toro foi escalar Sally Hawkins no papel principal. Ela entrega uma atuação monstruosa em um papel muito difícil de construir. Muda, ela precisa atuar muito com suas expressões faciais, e ela dá um show. Uma atuação simplesmente encantadora e apaixonante. A química entre a personagem dela e o personagem de Richard Jenkins é impecável. Octavia Spencer é o alívio cômico nessa grande fábula, além de várias vezes ser a voz de Eliza. Michel Shannon, Michael Stuhlbarg  e Doug Jones (como a criatura) completam o elenco principal.

A trilha sonora de Alexandre Desplat viaja por temas que remetem a clássicos do cinema, que nos fazem sonhar, assim como a sonhadora personagem de Eliza. Guillermo del Toro utiliza até Carmem Miranda nos temas para nos passar o que a personagem principal está sentindo. O filme é perfeito em sua direção de arte, cada cenário é construído de maneira perfeita, o que mostra o carinho e o cuidado de del Toro em todas as fases do filme. E sim, o filme merece todos os prêmios e todas as indicações que teve ao Oscar.

Uma fábula sonhadora e inspiradora, del Toro nos mostra que podemos encontrar o amor, onde menos esperamos. Um cineasta como poucos que é capaz de nos entregar uma poesia em forma de filme.

The Shape of Water, 2017. Direção: Guillermo del Toro. Com: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spenser, Michael Stuhlbarg, Doug Jones, David Hewlett, Nick Searcy. 123 Min. Drama.

Cinema: The Post – A Guerra Secreta

Poucas coisas casam tão bem na arte do entretenimento como Steven Spielberg e o tema guerra. O cineasta já nos entregou o excelente O Resgate do Soldado Ryan (1998), o tocante Cavalo de Guerra (2011) e os seriados Band of Brothers (2001) e The Pacific (2010), que possuem uma qualidade técnica e um roteiro de alta qualidade. Dessa vez em The Post: A Guerra Secreta, Spielberg deixa o campo de batalha de lado (apenas no começo, ele nos da um gostinho da batalha) para se debruçar nos bastidores da Guerra do Vietnã.

The Post: A Guerra Secreta é focado em um dos maiores escândalos da política americana, do fracasso envolvendo a guerra do Vietnã. Vários presidentes americanos passaram por seus mandatos enviando jovens para morrerem no campo de batalha em uma guerra há muito tempo perdida. O medo do fracasso fez os presidentes empurrarem a guerra “com a barriga”, literalmente. Documentos vazam durante o governo de Richard Nixon, e é aí que o então mediano jornal The Washington Post resolve publicar isso, correndo o risco de serem massacrados por Nixon, do jornal fechar e as principais pessoas que regem o jornal serem presas. Spielberg aproveita o tema para mostrar o poder da imprensa perante a política e a sua liberdade de expressão.

Com uma direção ágil de Steven Spielberg, o filme consegue causar muita tensão, principalmente de sua metade para o fim. Todas as decisões importantes (e não são poucas) que a personagem Kay Graham (Meryl Streep) precisa tomar, deixam-nos na ponta da cadeira para não perdermos nenhuma nuance de que a personagem apresenta. Kay Graham, que acabou de assumir o jornal após a morte do marido, é um verdadeiro peixe fora d’água no mundo de redações e coberturas jornalísticas. Ela é mais o tipo socialite, enquanto o marido era quem realmente tomava conta dos negócios. O diretor de fotografia do filme, Janusz Kaminski, inclusive aproveita muito bem esse fato, pois a todo momento vemos Meryl Streep um pouco mais abaixo do que outros personagens. Seja fazendo com que ela esteja sentada e outros personagens em pé, seja com a própria angulação da cena. Aos poucos percebemos a evolução de Kay afrente do jornal, até culminar em uma cena fantástica, onde ela mostra quem é a verdadeira dona do jornal.

A direção de arte de Rick Carter é de um primor de encher os olhos. Toda a recriação de uma redação de jornal até a parte onde ficam as impressoras é de um cuidado impressionante. O filme nos mostra inclusive as chapas de impressão sendo confeccionadas. Toda essa recriação é mostrada em uma cena tensa, que foi a cena da publicação ou não do jornal. Perfeita.

Precisa mesmo falar de Meryl Streep e Tom Hanks? Mais uma vez ambos estão ótimos em seus papéis. Meryl continua a dominar um personagem como ninguém, não é por menos que essa já é a sua vigésima primeira indicação ao Oscar. Aqui ela consegue atuar apenas com suas expressões faciais em certos momentos. Da um banho de atuação nos momentos em que sua personagem tem a tensão da história voltada para si. Aqui ela mostra o poder da mulher em um mundo dominado por homens. Tom Hanks está em um personagem um pouco diferente do que estamos acostumados a ver, aquele do mocinho. Aqui, longe de ser o vilão, mas ele entrega perfeitamente aquele jornalista que quer trazer a história à tona, que insiste até conseguir o que quer. E ver os dois juntos em cena, Streep e Hanks, é um deleite de apreciação para todos os amantes do cinema. Isso é mais um ponto a favor do filme. O elenco ainda conta com Bob Odenkirk de Better Call Soul e Breaking Bad.

O filme tem um ritmo um pouquinho arrastado no início, mas bobagem, nada que atrapalhe esse grande filme. É Spielberg fazendo cinema de gente grande, mais uma vez em sua carreira.

The Post, 2017. Direção: Steven Spielberg. Com: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts. Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Alison Brie, Carrie Coon, Zach Woods. 116 Min. Drama.