Cinema: Hereditário

Impossível sair da sessão de Hereditário sem estar incomodado com tudo o que foi mostrado na tela. O filme escrito e dirigido pelo estreante Ari Aster é uma grande surpresa do gênero terror, do qual vem apresentando ótimos filmes nos últimos anos, e que em Hereditário alcança o melhor do gênero em décadas, na minha humilde opinião.

Hereditário conta a história da família Graham que, após a morte da reclusa e misteriosa avó, começam a desvendar algumas coisas. Mesmo após a morte, a avó permanece como uma sombra sobre a família, especialmente sobre a neta, Charlie, por quem ela sempre demonstrou um afeto.

A grande sacada de Ari Aster é apostar em um visual bastante interessante e uma narrativa envolvente para criar algo intrigante e original. O diretor e roteirista deixa de lado os sustos que tanto vemos em filmes de um gênero bastante desgastado. A música alta para indicar que algo está para acontecer, aqui não aparece. E monstros ou entidades fantasmagóricas também não dão as caras. Aqui os “vilões” são a própria família, o que nos leva a uma narrativa que praticamente nos deixa em um labirinto, tentando desvendar tudo o que acontece.

O roteiro nos leva a pensar muito, o que é raro para um filme de terror. Uma das coisas que mais nos deixa intrigados é se tudo o que estamos vendo é algo sobrenatural ou tudo acontece devido a uma mente perturbada em decorrência do luto. Você se questiona devido aos atos da mãe, Annie, tanto no seu passado como no presente. E tudo isso faz com que o público projete seus medos sobre o que a história está contando, o que é um mérito enorme para o roteiro de Ari Aster.

Uma das coisas mais interessantes no filme são as miniaturas criadas por Annie. A reconstrução nas suas criações do que a atormenta, acaba sendo um pouco poético, além de ser perturbador também. As miniaturas também podem ser um indicador do diretor de que elas são manipuláveis, de que os personagens fazem parte de algo maior ao redor deles, ou seja, que existe algo que controla tudo aquilo. Essa conexão pode ser feita ao final do filme, quando temos sua resolução.

Toni Collette foi a escolha perfeita para interpretar Annie. Em uma atuação inspirada, que surge devido a coisas tão comuns como a perda de um ente querido ou a um sonambulismo, entrega uma personagem fraca psicologicamente devido a todos os seus traumas. Suas caras e bocas nos fazem lembrar de Kathy Bates em Louca Obsessão, e sua Annie Wilkes, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz. A atuação de Toni Collette é tão soberba que a atriz merecia uma indicação ao Oscar. O elenco ainda conta com Gabriel Byrne, Alex Wolff e a misteriosa Milly Shapiro.

Elogiado pelos críticos americanos, e ganhando comparações com os grandes clássicos como O Exorcista e O Iluminado, a história de Hereditário nos lembra um pouco O Bebê de Rosemary. A qualidade do longa é enorme e com certeza Hereditário será muito lembrado nos próximos anos e se tornará um dos clássicos do cinema.

A maioria dos filmes de terror cai no esquecimento por apostar no fator susto. Hereditário vai por outro caminho e cria uma experiência que provoca e deixa o espectador desconfortável. É um filme para você sair e discutir por muito tempo depois da sessão. Hereditário é obrigatório.

Hereditary, 2018. Direção: Ari Aster. Com: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Milly Shapiro, Ann Dowd, Mallory Bechtel. 127 Min. Terror.

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Cinema: Um Lugar Silencioso

Sem dúvidas esta década em que vivemos mostra uma ótima fase dos filmes de terror. James Wan entregou os excelentes Invocação do Mal (2013) e Invocação do Mal 2 (2016), M. Night Shyamalan fez o ótimo A Visita (2015) e o espetacular Fragmentado em (2017), e ainda tivemos a surpresa Corrente do Mal (2014) e o arrebatador A Bruxa (2015). Acompanhando o bonde, Um Lugar Silencioso trabalha com elementos que definem a sua narrativa e se transforma em um dos melhores filmes do ano.

O filme é dirigido por John Krasinski (sim o Jim Halpert de The Office!). Além de dirigir, John protagoniza o filme ao lado da sua esposa na vida real e aqui no filme, Emily Blunt. A proposta do filme é simples e fácil de se entender. O mundo vive uma distopia, onde seres de outros planetas invadiram a Terra e acabaram com quase tudo em apenas 89 dias. Esses seres são cegos, porém, têm a audição muito aguçada e eles caçam e destroem a presa que fizer barulho rapidamente. É nessa atmosfera que acompanhamos o casal Lee Abbott (John Krasinski) e Evelyn Abbott (Emily Blunt), acompanhados dos filhos Regan Abbott (Millicent Simmonds, surda e muda no filme e na vida real) e Marcus Abbott (Noah Jupe) na luta pela sobrevivência.

É difícil enumerar todas as qualidades de Um Lugar Silencioso. Para começar o filme trabalha muito bem o silêncio. Em boa parte da sua primeira metade, podemos dizer até que é um filme mudo. A trilha sonora de Marco Beltrami aparece, mas não a ponto de ser chamativa, na verdade ela auxilia o silêncio dos personagens, cobrindo a ausência de diálogos. É uma trilha pontual que sempre aparece no momento certo filme.

A mixagem de som do filme é perfeita. Quando objetos precisam fazer barulhos, esse som é mais elevado, incomodando quem está assistindo, assim como incomoda os personagens, que precisam viver em silêncio. O som é tão bem trabalhado no filme e a direção de John Krasinski é tão segura que é interessante quando, por exemplo, estamos ouvindo o barulho do ser alienígena e de repente a câmera corta para a personagem de Regan e o som desaparece. Como ela não escuta, estamos vendo o perigo a partir dela, ou seja, sua reação é a partir do que os outros personagens estão demonstrando. A mixagem de som trabalha muito bem essa parte de um escuta e o outro não escuta.

A fotografia de Charlotte Bruus é impecável e nesse filme é muito importante que fosse. Na ausência de diálogos, os nossos olhos ficam aguçados. O filme trabalha muito com planos que retratam a expressão no rosto dos personagens o que auxiliado com a acústica do som, faz com que não saibamos de onde o monstro está vindo. As cenas noturnas, misturadas com uma coloração vermelha da um charme ao filme, ao mesmo tempo em que sabemos que o vermelho no longa, também significa perigo.

O começo do filme é lento para entendermos o que está se passando. Os personagens não explicam nada, vamos montando as peças através de recortes de jornais que encontramos, mas o interessante do filme é que desde o início já sentimos o sentido de alerta. O roteiro cheio de conflitos é assinado por Bryan Woods, Scott Beck e também John Krasinski.

Uma das grandes surpresas do filme é a direção de John Krasinski. Ele que dirigiu três episódios de The Office, já tinha feito a sua estreia na direção de um longa em 2016, com Família Hollar, porém, aqui podemos dizer que ele fica conhecido como diretor, pois o filme está sendo aclamado pela crítica e fazendo um bom dinheiro por onde está passando. John entrega uma direção segura, tem o controle dos personagens nas mãos e sabe a todo momento o resultado que quer dar para seu filme. Um trabalho totalmente diferente do que geralmente ele faz que é mais voltado pra comédia, mas que nos deixa animado para ver mais coisas feitas por ele.

Apesar do filme também ser protagonizado por ele, o longa é dela, Emily Blunt. Ela está impecável e entrega uma atuação comovente. Sua personagem está vivendo um momento que ela precisa sentir mil coisas e mesmo assim ela precisa ficar em silêncio. É angustiante, e a cena da banheira reflete como ela é uma atriz talentosa. Sua personagem mostra aquele espírito que as mães têm: o de proteção; a todo o momento ela nos passa esse espírito. Já John Krasinski é aquele pai que tem o espírito da sobrevivência, por isso ele precisa ensinar aos filhos como sobreviver nesse mundo.

O final poderoso que possui Um Lugar Silencioso vem para coroar uma produção que foi feita com bastante cuidado e zelo por John Krasinski. Um filme para ser visto, apreciado e sentido no cinema.

A Quiet Place, 2018. Direção: John Krasinski. Com: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cade Woodward. 90 Min. Terror.

Cinema: It – A Coisa

Chega aos Cinemas It: A Coisa, uma readaptação do excelente livro de Stephen King. Digo readaptação porque o livro já virou um filme para a televisão em 1990 em It: Uma Obra Prima do Medo. Porém, nesse novo longa, um tratamento mais cuidadoso a toda obra de King marca a qualidade do filme.

Na trama, crianças começam a desaparecer na cidade de Derry. Um deles é irmão de Bill, Georgie. Bill mais seis amigos começam uma busca para tentar encontrar o responsável pelos desaparecimentos, e acabam descobrindo que a cada 27 anos coisas estranhas acontecem na cidade. Enquanto isso, eles sofrem com uma ameaça, o palhaço Pennywise que os amedrontam tocando muito fundo nos seus medos mais escondidos. E que ele pode ser o responsável pelos desaparecimentos.

A obra de Stephen King possui aproximadamente 1000 páginas. Enquanto o filme de 1990 contou toda a história em um longa de três horas de duração, aqui nesta readaptação de 2017, apenas a primeira parte do livro, focada nas crianças, foi contada. Ficando a segunda parte do livro, com essas mesmas crianças já adultas, para um segundo filme. Isso foi fundamental para contar a história com mais detalhes, aprofundando o drama de cada personagem.

Dirigido por Andy Muschietti, do bom Mama, o diretor tem a árdua tarefa de mostrar muita coisa em 135 minutos de filme. Mostrar o convívio de sete crianças com suas respectivas famílias, abordar seus medos, desenvolver o palhaço Pennywise, criar conflitos e ainda deixar espaço para um pequeno desenvolvimento romântico. Felizmente, o diretor conseguiu cumprir com méritos todos esses desafios.

Stephen King sempre gostou de mostrar em suas obras aquele grupo de minorias que juntos são mais fortes. Conta Comigo é clássico e tem em sua essência essa característica. Aqui ele faz mais e consegue reunir no grupo de crianças uma que sofre de gagueira, um asmático, um negro, um judeu, um gordinho e uma garota que sofre abusos do pai. O diretor Andy Muschietti consegue trabalhar cada um deles de maneira muito sútil, mostrando as relações familiares e nos fazendo entender de maneira fácil seus medos e seus anseios.

O diretor consegue mesclar muito bem momentos de terror e frases hilárias de maneira a não fazer o filme perder a tensão. Sem medo de chocar o público, Andy mostra cenas chocantes como membros sendo arrancados, violência contra crianças, bullying, abuso infantil. Tudo com muito cuidado e na medida certa. O diretor consegue trabalhar bem com os cenários. Cenas como quando Bill vê seu irmão no porão, a assustadora cena do banheiro com Beverly que lembra muito Carrie, a Estranha e o ápice final, dentre muitas outras cenas, mostram a qualidade de todo o trabalho do diretor.

O elenco infantil foi muito bem escolhido e dirigido. Personagens carismáticos, com destaque para Sophia Lillis que interpreta Beverly demonstrando ser a mais talentosa do grupo, com um olhar que consegue demonstrar muitos sentimentos. Seu personagem possui um trabalho muito bem feito mostrando o seu lado feminino e suas descobertas. Jack Dylan, que faz Eddie, mostra toda histeria e exagero que o personagem possui, também está ótimo. E para os fãs de Stranger Things, ainda temos Finn Wolfhard, o alívio cômico do grupo e, diga-se de passagem, um alívio cômico que funciona muito bem.

Agora abrimos espaço para falar da alma do filme. Sem sombra de dúvidas o longa não seria o mesmo sem Bill Skarsgard e seu Pennywise. O palhaço dançarino prefere fazer suas vítimas sofrerem de maneira psicológica ao invés de simplesmente matá-las. Pennywise é malvado, perverso, cruel, DOENTIO. Skarsgard consegue transparecer tudo isso em uma atuação impressionante. Algumas pessoas não conseguem ver suas cenas, de tão DOENTIO que ele está. O ator surpreende e entrega um dos maiores vilões em filmes de terror da história. Se muitos se impressionavam com o Pennywise de Tim Curry no filme antigo, este de Bill Skarsgard vem para ser o Pennywise definitivo. Com frases desafiadoras para quem entra em seu caminho como “Eu não sou real o suficiente para você?”, o ator consegue encarnar realmente o verdadeiro medo. Aliás, o filme consegue demonstrar muito bem como Pennywise fica mais forte. Quanto mais medo e inocência das crianças, mais forte o palhaço dançarino fica.

Este novo filme poderia facilmente ser enquadrado em um longa dos anos 80. Não digo em suas características, pois essas são dos anos 80. Digo na alma do filme. O sentimento de amizade, companheirismo, aventura, e união perpetua por todo o filme. It: A Coisa é um filme gostoso de assistir e esse clima oitentista colabora com isso. A fotografia do filme é um primor de tão linda que está, soube aproveitar bem a época que foi retratada e o resultado é fantástico.

Outra coisa perfeita no filme é o design de produção. Não seria exagero se o filme aparecesse entre os indicados ao Oscar nessa categoria. A criação da casa antiga e abandonada que as crianças entram em uma das partes do filme é um verdadeiro capricho. O fato de nós, espectador, não conhecer a casa, nos coloca no mesmo ponto das crianças. Cada espaço adentrado é uma surpresa. A persona de Pennywise tem um figurino e maquiagem perfeitos. O trabalho de produção é tão bacana e cuidadoso no filme, que podemos observar em cenas simples, onde as crianças andam na rua, filmes como Batman e A Hora do Pesadelo 5 que estavam em cartaz no cinema da cidade. Filmes que realmente foram lançados na época em que a história se passa.

O longa aproveita para reverenciar diversas obras de Stephen King que também perpetuam na cultura pop nos dias de hoje. É possível pegar referências de Conta Comigo, Carrie, a Estranha, Christine: O Carro Assassino, filmes baseados na obra do escritor, e também lembrar de Stranger Things, sendo que esta já referencia tantos filmes dos anos 80.

It: A Coisa é audacioso ao confirmar já no seu próprio final, a parte dois do filme. As crianças fizeram sua parte, agora é torcer para que a continuação que deve chegar em 2019 aos cinemas, mostrando essas crianças 27 anos mais velhas, seja tão excelente como a primeira parte.

 

 

 

It, 2017. Direção: Andy Muschietti. Com: Bill Skarsgard, Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Nicholas Hamilton, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert. 135 Min. Terror.

Cinema: A Torre Negra

Há mais de quatro décadas que as obras do escritor Stephen King ganham vida em Hollywood. Algumas vezes bem produzidas e de qualidade como À Espera de Um Milagre, Um Sonho de Liberdade, O Iluminado, e outras bem regulares, como O Apanhador de Sonhos e Sonâmbulos. E agora é a vez de A Torre Negra chegar aos cinemas, 35 anos depois do primeiro livro O Pistoleiro ser escrito.

O longa aborda a história do jovem Jake, garoto que mora com a mãe e o padrasto. Seus sonhos mostram um universo paralelo, onde um feiticeiro denominado O Homem de Preto tenta destruir a Torre Negra, a única fonte que ainda mantém o universo a salvo. Os sonhos também mostram um Pistoleiro, o único capaz de proteger a Torre.

O filme tem um problema sério de roteiro. Não adianta listar aqui as mudanças de livro para filme, porque são muitas. Mas é importante destacar que a essência da história criada por Stephen King foi deixada para trás. O filme não se preocupa em ambientar melhor o público na história, respondendo e explicando melhor elementos que são mostrados. O que a Torre possui que é capaz de proteger o universo? Porque o Pistoleiro é o único que pode protegê-la? Quem é o Rei Rubro? E isso só para citar algumas coisas.

Imagine uma pessoa que nunca assistiu a saga O Senhor dos Anéis. Essa pessoa decide começar assistindo a saga pelo filme As Duas Torres. Essa mesma pessoa ficaria se perguntando algumas coisas, em busca de respostas sobre como cada personagem chegou naquele ponto da história. É essa mesma sensação que A Torre Negra passa. Parece que estamos assistindo uma continuação, porque o filme nos deixa perdido com algumas coisas.

Apesar da falta de respostas, o filme se segura nos seus dois primeiros atos. Mas quando chega ao final, o longa desanda de vez. O clímax final deixa a desejar em todos os momentos. O filme nos da a impressão que o embate final entre o Homem de preto e o Pistoleiro poderia ser algo épico, mas o que vemos em tela é um final recheado de clichês baratos e decepcionantes, que nos faz lembrar até de uma certa cena em Freddy x Jason.

Idris Elba que interpreta o Pistoleiro e o garoto Tom Taylor que interpreta Jake são pontos positivos que acabam se salvando no filme. Matthew McConaughey está totalmente deslocado no papel de O Homem de Preto. O talentoso ator entrega aqui uma atuação um tanto quanto canastrona. O diretor Nikolaj Arcel faz um trabalho totalmente equivocado, é notável que ficou faltando um diretor experiente para levar uma saga tão cultuada quanto A Torre Negra para os Cinemas. Vale lembrar que o roteiro foi escrito por quatro pessoas, o que pode ter ocasionado essas decisões erradas por toda a história do filme.

De bom, o filme apresenta um visual interessante ao tentar fazer uma mistura de faroeste, em um dos mundos paralelos, com a sociedade atual no nosso mundo como o conhecemos. E a trilha sonora também se amarra bem à história que se propôs.

Existem planos para uma sequência no Cinema e também para que o livro vire uma série de televisão. Caso tudo isso se confirme, é bom que muita coisa seja repensada e alterada. Seguir mais de perto o livro de King é um caminho que deve ser tomado.

 

 

 

The Dark Tower, 2017. Direção: Nikolaj Arcel. Com: Matthew McConaughey, Idris Elba, Tom Taylor, Dennis Haysbert, Claudia Kim, Jackie Earle Haley, Abbey Lee, Fran Kranz. 95 Min. Ação.

Cinema: Annabelle 2 – A Criação do Mal

Annabelle nasceu para o cinema em 2013, ao aparecer na introdução de Invocação do Mal. Devido ao sucesso do filme, ganhou rapidamente um spin-off, lançado já em 2014. Um ano separou a criação de roteiro, gravação, edição e lançamento do filme, talvez isso seja a resposta para um filme tão abaixo da média que foi o Annabelle de 2014. Um longa que apresenta apenas sustos bobos e não cria em momento algum um clima de terror em torno da história.

Três anos se passaram entre o primeiro e esta sequência que chega aos cinemas. Três anos que fizeram muito bem ao produto que é Annabelle. Um longa superior em todos os quesitos ao seu antecessor. Annabelle 2: A Criação do Mal se passa antes do primeiro, e conta a história do casal Samuel Mullins (Anthony LaPaglia) e Esther Mullins (Miranda Otto) que perdem de maneira inesperada a sua filha. Alguns anos depois, eles passam a receber crianças órfãs em sua casa, por caridade, para preencher o vazio deixado pela filha. Aos poucos, segredos vão sendo descobertos pelas crianças, e elas precisaram lidar com Annabelle.

O grande acerto do diretor David F. Sandberg (roteirista e diretor de Quando as Luzes se Apagam) é conseguir criar um clima de tensão e horror durante todo o longa. As cenas são bem elaboradas e ele consegue equilibrar muito bem os momentos em que deve causar o susto e causar o terror. De todos os momentos assustadores do longa, apenas em dois eu acho que o diretor passou do ponto, mas nada que prejudique o filme.

Apesar do elenco ter nomes experientes como Anthony LaPaglia e Miranda Otto, a força do elenco está nas meninas órfãs, em especial Talitha Bateman que vive Janice, e Lulu Wilson que interpreta Linda. Lulu em especial consegue até nos divertir com suas caras de susto, mas nada que atrapalhe o clima do filme.

Outro ponto forte do filme é o design de produção responsável pela criação da casa onde todo o longa se passa. Como o filme é de época, a casa possui todos aqueles elementos antigos que funcionam bem em um filme de terror, junta-se a isso a sabedoria de David F. Sandberg em saber a hora certa de usar a luz a seu favor, e temos como resultado final a casa como personagem, o que é muito importante para um longa com essa proposta.

A trilha sonora também merece destaque, possui elementos que lembram muito filmes de décadas passadas, como produções mais recentes do gênero terror, como O Chamado.

Ah, e uma curiosidade para quem for ver o filme: Uma boneca de pano aparece já no final do filme, esta boneca é a verdadeira Annabelle, que o casal Ed e Lorraine Warren trataram do caso.

Apesar do público e da critica não terem gostado do primeiro filme, o final desta sequência se liga com o filme de 2014. Outro ponto interessante é ver a Freira demoníaca Valak que assombrou Lorraine Warren em Invocação do Mal 2, isso já para nos deixar na vontade de ver The Nun, que deve chegar aos cinemas no ano que vem.

Annabelle 2: A Criação do Mal não entrará para a galeria de clássicos do gênero terror, ainda está longe de ter a qualidade de um dos exemplares de Invocação do Mal, mas pelo menos ganhou um filme digno de ser assistido.

 

 


Annabelle: Creation, 2017. Direção: David F. Sandberg. Com: Anthony LaPaglia, Miranda Otto, Stephanie Sigman, Talitha Eliana Bateman, Lulu Wilson, Samara Lee, Grace Fulton, Philippa Coulthard. 109 Min. Terror.

Links relacionados:
– Annabelle (2014)

Cinema: Invocação do Mal 2

Invocação do Mal 2

Quando Invocação do Mal estreou em 2013, o cinema de terror estava em crise devido à falta de boas produções dos gêneros. Lampejos como o terror espanhol [REC] e O Exorcismo de Emily Rose salvaram a primeira década dos anos 2000, mas é pouco para um gênero que possui grandes clássicos de décadas passadas. Invocação do Mal tinha a seu favor o fato da história ser baseada em fatos reais, isso, somado a qualidade da produção, resultou em um dos melhores filmes do gênero nos últimos anos.

O filme fez tanto sucesso que acabou ganhando, além desta continuação, um spin-off em 2014, Anabelle, porém nem de longe o filme conseguiu o sucesso anterior de Invocação do Mal.

A história dessa continuação se passa sete anos após o primeiro filme. Lorraine Warren (Vera Farmiga) e Ed Warren (Patrick Wilson) estão abalados devido um caso que investigavam na cidade de Amityville, quando a igreja os contata para investigar um caso na cidade de Enfield, na Inglaterra, onde uma família é assombrada por um ser sobrenatural, que vem através de uma das filhas da matriarca. Enquanto isso, Lorraine também vem tendo premonições de acontecimentos relacionado a sua filha e marido, o que a deixa emocionalmente abalada.

Dirigido pelo malaio James Wan, criador do ótimo primeiro filme da franquia Jogos Mortais, do espetacular Velozes e Furiosos 7, além do primeiro Invocação do Mal, aqui ele consegue utilizar elementos simples em cena e causar muita tensão. James deixa de lado sustos bobos e coloca muito mais profundidade na sua história. Ele faz com que você se sinta um morador da casa, devido a narrativa que ele emprega em cena. O diretor entrega um filme de terror com bastante personalidade.

Outro ponto forte da história é a forma como o diretor trata os personagens. Alguns vivem dramas que nos faz querer mais sobre eles. Desde o drama de Lorraine que a deixa atormentada com visões de morte na sua família, até a mãe da família que além de ter que cuidar sozinha dos quatro filhos, ainda precisa lidar com o sobrenatural. Nesse ponto, onde os personagens são tão profundos, Invocação do Mal nos faz lembrar o grande clássico O Exorcista. O tratamento e o cuidado que o diretor tem com o casal Lorraine e Ed é impecável. Você consegue sentir toda a cumplicidade e amor que eles têm um pelo outro. Além da ótima direção de James Wan, a dupla de atores Patrick Wilson e Vera Farmiga dão muita credibilidade aos personagens. Farmiga inclusive tem uma interpretação fantástica, precisando mesclar sentimentos, ela está boa parte do tempo abalada e precisando ser forte ao mesmo tempo. Ela tem uma das melhores interpretações da carreira. Quem merece destaque também é o elenco infantil, todos muito bem, em especial Madison Wolfe, que interpreta Janet, a garota atormentada pelo ser sobrenatural.

Um dos pontos mais importantes que cercam a história do filme é a entidade que assombra e possui Janet. O demônio Valak, que já era mostrado até nos trailers, tem uma caracterização impressionante, o que o torna um dos personagens mais bem construídos no cinema de terror em termos de aparência. Seu fantasmagórico rosto branco, acompanhado de sua roupa de freira preta, é de causar arrepios em todo o público. O personagem é tão bem elaborado, que mesmo sendo visto no trailer, não estragou em nada o seu objetivo, que é o de assustar. O longa ainda conta com uma trilha sonora que remete aos filmes de terror antigos e que contribui muito para o clima assustador da história.

Uma boa história nas mãos de um bom diretor que gosta de trabalhar com o gênero, e que resultou em um ótimo filme. James Wan nos deixa ansiosos para mais algum caso dos Warren, desde que com a mesma qualidade dos dois primeiros longas.

Nota 9

The Conjuring 2, 2016. Direção: James Wan. Com: Patrick Wilson, Vera Farmiga, Madison Wolfe, Frances O`Connor, Lauren Esposito, Benjamin Haigh, Patrick McAuley, Simon McBurney, Frana Potente. 134 Min. Terror.

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Cinema: A Bruxa

A Bruxa

Um dos filmes de terror mais comentado nos últimos tempos, A Bruxa gerou bastante expectativa devido a sua presença marcante no Festival de Sundance. Com uma história contada a séculos atrás, este filme merece elogios pelos elementos utilizados na história deixando de lado certos clichês que os filmes de terror adoram utilizar nos dias de hoje.

O filme se passa na Nova Inglaterra em 1630. Famílias vivem em vilarejos onde a religião é muito forte. Qualquer comportamento não religioso é visto como penalidade grave, o que pode fazer com que a pessoa seja expulsa do grupo que vive. É exatamente nesse ponto que A Bruxa inicia. O casal William e Katherine, juntamente com seus cinco filhos, são expulsos do vilarejo. A família se isola e passa a viver próximo a uma floresta. Tudo ia bem, até que um dia a filha mais velha está cuidando do irmão caçula, um recém-nascido, quando ele simplesmente some. O que teria acontecido com o pequeno bebê? Algum animal o teria pegado? Ou algum tipo de bruxa?

A narrativa do filme caminha de forma lenta. O diretor e roteirista Robert Eggers não está preocupado em fornecer sustos bobos a cada minuto. A narrativa do filme é tão envolvente que os elementos religião, isolamento, natureza e misticismo se unem de maneira satisfatória, criando todo um clima de suspense envolto dos dramas vividos pelos personagens.

A Bruxa acerta em vários aspectos, inclusive ao arriscar mostrar a tal bruxa do título. A forma utilizada pelo diretor foi sútil, porém correta para não estragar o personagem. Outro elemento muito bem utilizado foi o bode Black Phillip. A relação do animal com a família chega a ser misteriosa, levando para um conflito com o patriarca na parte final do filme. Talvez o que tenha faltado ao diretor foi utilizar mais a floresta no longa. Filmes como A Bruxa de Blair mostram o quão o elemento natureza pode ser bem utilizado. Aqui em A Bruxa, a floresta poderia ter sido utilizada de forma bem melhor. Durante todo o filme, fiquei com a sensação disso. A Bruxa é bom, mas ficou a sensação de que poderia ser melhor. E esse melhor, na minha humilde opinião, seria ter utilizado mais a floresta. O roteiro ainda tem alguns furos, como o que teria acontecido aos outros dois outros filhos do casal (quem assistir, vai saber porque fiz essa observação). Mas nada grave demais a ponto de estragar o filme.

Outros elementos merecem destaque. Robert Eggers utiliza de forma perfeita a fotografia. Iluminando os ambientes noturnos a luz de velas, o diretor conseguiu um visual muito bonito para o filme, chegando até a lembrar períodos históricos da arte, como o renascentista. A trilha sonora tenebrosa, carregada no violino em algumas partes, é de causar arrepios. A paleta de cores utilizada pelo diretor é um grande acerto que casa muito bem com toda a trama. Das tonalidades cinzentas das roupas e de outros elementos, até chegar ao sépia causado pela iluminação da luz de velas. As cores transmitem isolamento e ajudam nos momentos de tensão do filme.

Anya Taylor Joy que interpreta Thomasin, a filha mais velha, está ótima em cena. A garota de aparência pálida e olhar firme merece elogios. Harvey Scrimshaw que interpreta Caleb, irmão de Thomasin, também está muito bem em cena. O filme fica mais poderoso quando eles estão em ação.

Elogiado (e recomendado!) pela seita satânica The Satanic Temple, A Bruxa é um filme que vai na contramão da maioria dos filmes descartáveis de terror lançados hoje em dia. É um filme contado de maneira lenta, com muito cuidado, que prefere utilizar elementos do cotidiano para assustar, deixando de lado efeitos computadorizados e rios de sangue. Um filme que merece ser descoberto.

Nota 8

The VVitch: A New-England Folktale, 2015. Direção: Robert Eggers. Com: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Bathsheba Garnett. 92 Min. Terror.

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