Cinema: Um Lugar Silencioso

Sem dúvidas esta década em que vivemos mostra uma ótima fase dos filmes de terror. James Wan entregou os excelentes Invocação do Mal (2013) e Invocação do Mal 2 (2016), M. Night Shyamalan fez o ótimo A Visita (2015) e o espetacular Fragmentado em (2017), e ainda tivemos a surpresa Corrente do Mal (2014) e o arrebatador A Bruxa (2015). Acompanhando o bonde, Um Lugar Silencioso trabalha com elementos que definem a sua narrativa e se transforma em um dos melhores filmes do ano.

O filme é dirigido por John Krasinski (sim o Jim Halpert de The Office!). Além de dirigir, John protagoniza o filme ao lado da sua esposa na vida real e aqui no filme, Emily Blunt. A proposta do filme é simples e fácil de se entender. O mundo vive uma distopia, onde seres de outros planetas invadiram a Terra e acabaram com quase tudo em apenas 89 dias. Esses seres são cegos, porém, têm a audição muito aguçada e eles caçam e destroem a presa que fizer barulho rapidamente. É nessa atmosfera que acompanhamos o casal Lee Abbott (John Krasinski) e Evelyn Abbott (Emily Blunt), acompanhados dos filhos Regan Abbott (Millicent Simmonds, surda e muda no filme e na vida real) e Marcus Abbott (Noah Jupe) na luta pela sobrevivência.

É difícil enumerar todas as qualidades de Um Lugar Silencioso. Para começar o filme trabalha muito bem o silêncio. Em boa parte da sua primeira metade, podemos dizer até que é um filme mudo. A trilha sonora de Marco Beltrami aparece, mas não a ponto de ser chamativa, na verdade ela auxilia o silêncio dos personagens, cobrindo a ausência de diálogos. É uma trilha pontual que sempre aparece no momento certo filme.

A mixagem de som do filme é perfeita. Quando objetos precisam fazer barulhos, esse som é mais elevado, incomodando quem está assistindo, assim como incomoda os personagens, que precisam viver em silêncio. O som é tão bem trabalhado no filme e a direção de John Krasinski é tão segura que é interessante quando, por exemplo, estamos ouvindo o barulho do ser alienígena e de repente a câmera corta para a personagem de Regan e o som desaparece. Como ela não escuta, estamos vendo o perigo a partir dela, ou seja, sua reação é a partir do que os outros personagens estão demonstrando. A mixagem de som trabalha muito bem essa parte de um escuta e o outro não escuta.

A fotografia de Charlotte Bruus é impecável e nesse filme é muito importante que fosse. Na ausência de diálogos, os nossos olhos ficam aguçados. O filme trabalha muito com planos que retratam a expressão no rosto dos personagens o que auxiliado com a acústica do som, faz com que não saibamos de onde o monstro está vindo. As cenas noturnas, misturadas com uma coloração vermelha da um charme ao filme, ao mesmo tempo em que sabemos que o vermelho no longa, também significa perigo.

O começo do filme é lento para entendermos o que está se passando. Os personagens não explicam nada, vamos montando as peças através de recortes de jornais que encontramos, mas o interessante do filme é que desde o início já sentimos o sentido de alerta. O roteiro cheio de conflitos é assinado por Bryan Woods, Scott Beck e também John Krasinski.

Uma das grandes surpresas do filme é a direção de John Krasinski. Ele que dirigiu três episódios de The Office, já tinha feito a sua estreia na direção de um longa em 2016, com Família Hollar, porém, aqui podemos dizer que ele fica conhecido como diretor, pois o filme está sendo aclamado pela crítica e fazendo um bom dinheiro por onde está passando. John entrega uma direção segura, tem o controle dos personagens nas mãos e sabe a todo momento o resultado que quer dar para seu filme. Um trabalho totalmente diferente do que geralmente ele faz que é mais voltado pra comédia, mas que nos deixa animado para ver mais coisas feitas por ele.

Apesar do filme também ser protagonizado por ele, o longa é dela, Emily Blunt. Ela está impecável e entrega uma atuação comovente. Sua personagem está vivendo um momento que ela precisa sentir mil coisas e mesmo assim ela precisa ficar em silêncio. É angustiante, e a cena da banheira reflete como ela é uma atriz talentosa. Sua personagem mostra aquele espírito que as mães têm: o de proteção; a todo o momento ela nos passa esse espírito. Já John Krasinski é aquele pai que tem o espírito da sobrevivência, por isso ele precisa ensinar aos filhos como sobreviver nesse mundo.

O final poderoso que possui Um Lugar Silencioso vem para coroar uma produção que foi feita com bastante cuidado e zelo por John Krasinski. Um filme para ser visto, apreciado e sentido no cinema.

A Quiet Place, 2018. Direção: John Krasinski. Com: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cade Woodward. 90 Min. Terror.

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Cinema: Círculo de Fogo – A Revolta

Em 2013 Guillermo del Toro criou um filme que virou um presente para os nerds de todo o mundo. Círculo de Fogo é reverenciado até hoje pelo conceito criado por del Toro e pela forma criativa e inteligente que o diretor deu à sua criação. Escrito e dirigido pelo cineasta, o primeiro filme trouxe aquele espírito de cinemão pipoca, porém, com conteúdo. Nesta continuação, del Toro entra apenas como produtor, e isso fez muita diferença para o resultado final do filme.

Círculo de Fogo: A Revolta acompanha Jake Pentecost (John Boyega) filho de Stacker Pentecost (Idris Elba), que no primeiro filme era o responsável pelo programa Jaeger. Jake não seguiu bem os passos do pai, abandonou o treinamento e entrou no mundo do crime, atuando no mercado negro vendendo peças de robôs abandonadas. Após uma perseguição, ele encontra a jovem Amara (Cailee Spaeny) que construiu um Jaeger pirata. Eles acabam sendo capturados, e para evitar a prisão, eles acabam entrando no programa Jaeger.

Ocupado na produção do filme que lhe rendeu o Oscar, A Forma da Água, Guillermo del Toro sai da criação e direção para dar lugar a Steven S. DeKnight, que faz a sua estreia na direção de um filme. E o grande problema do filme se encontra no roteiro, na criação, pois, tudo o que del Toro criou no primeiro filme, é esquecido e jogado no ralo. Todo o conceito criado por ele dos Jaeger aqui não é utilizado, e a verossimilhança que del Toro utilizou aqui é trocada por uma aventura fraca, sem um pingo de inteligência, que acaba dando prioridade a destruição.

Aqui os Jaegers são mais rápidos, conseguem fazer acrobacias. O conceito de movimentos lentos que del Toro empregou, nem de longe é utilizado no longa. Del Toro se preocupa com as suas criações, e empregou o fato da lentidão, porque os Jaegers são grandes e pesados. Ele deu alma as suas criações. Aqui na continuação, Steven S. DeKnight não quis nem saber, e acabou trocando o peso e a cadência que del Toro empregou por velocidade e agilidade. Com isso, as sequências de ação lembram muito mais os filmes da franquia Transformers, do que o próprio Círculo de Fogo. O roteiro também falha feio quando encontra uma solução em seu final, que podemos classificar de, no mínimo, “absurda”. Sem falar que a montagem do filme também é falha, principalmente nessa parte final. O que acontece, pode se dizer que, é até um desrespeito a inteligência de quem está assistindo. Apesar disso tudo, o filme consegue divertir em alguns momentos, mas o principal problema é porque não temos como não comparar com o primeiro filme, e quando fazemos essa comparação, os erros são gritantes.

O filme acerta em escalar John Boyega, é um ator do momento e tem cara de filme de ação, mesmo que ele não chegue nem perto do papel de Idris Elba no primeiro filme. Porém, John tem muita química com a melhor coisa do filme, que com certeza é Cailee Spaeny. Carismática, ela se mostra muito talentosa e se destaca em um elenco que é quase todo descartável. Scott Eastwood, que vive Nate Lambert, em certo momento do filme chegamos a nos perguntar se realmente é necessário o personagem dele. O diretor tenta criar uma rivalidade entre o seu personagem e o de Jake, porém, rapidamente essa rivalidade é descartada. Três personagens retornam do primeiro Círculo de Fogo. Rinko Kikuchi volta com a personagem Mako Mori, porém, fica pouco tempo em tela. Burn Gorman que vive o Dr. Hermann Gottlieb está bem no filme, o mesmo não se pode dizer da volta de Charlie Day, na pele do Dr. Newton Geiszier. Charlie Day está péssimo no filme, longe de convencer alguém como um vilão. Tirando isso, o filme tem mais meia dúzia de personagens jovens, que estão sendo preparados para pilotarem Jaegers, na qual a existência deles é apenas para justificar a pancadaria e a destruição de Tóquio na parte final do filme.

A trilha sonora também está deslocada no filme. Enquanto no primeiro filme a trilha de Ramin Djawadi deixava você todo no clima dos personagens e da ação que estava por vir, a trilha desta continuação de John Paesano não acerta.

Círculo de Fogo: A Revolta chega a ser divertido, mesmo com absurdos no roteiro e personagens totalmente sem importância alguma. Mas passa longe de ficar no imaginário, como o primeiro filme de del Toro. Um filme esquecível, uma pena.

Pacific Rim: Uprising, 2018. Direção: Steven S. DeKnight. Com: John Boyega, Scott Eastwood, Cailee Spaeny, Burn Gorman, Charlie Day, Tian Jing, Rinko Kikuchi, Karan Brar, Wesley Wong, Ivanna Sakhno, Lily Ji. 111 Min. Ação.

Cinema: Jogador Nº 1

Com certeza Steven Spielberg é o responsável por fazer muita gente amar cinema. Jovens e crianças dos anos 80 e 90 cresceram admirando filmes como, E.T: O Extra-Terrestre, as aventuras do arqueólogo Indiana Jones, filmes como Os Goonies e a trilogia De Volta Para o Futuro – nesses dois últimos Spielberg atuou como produtor. Aqui o diretor entrega uma aventura moderna, Jogador Nº 1, adaptação do livro de Ernest Cline que também escreve o roteiro do filme ao lado de Zak Penn.

O filme se passa em um futuro distópico, no ano de 2045 onde em meio a pobreza, a humanidade se distrai através de um jogo de realidade virtual chamado Oasis. Após a morte do criador do jogo, James Halliday (Mark Rylance), um vídeo surge, em que o criador revela que escondeu no Oasis três chaves que devem ser encontradas e assim um easter egg ser achado. Quem encontrar, será dono do Oasis e ficará com uma enorme fortuna. E, assim, acompanhamos Wade Watts (Tye Sheridan, cujo avatar é Parzival) na busca por essas chaves, enquanto uma companhia de jogos rival do Oasis contrata milhares de jogadores para encontrar o easter egg primeiro.

O livro é recheado de referências e é muito divertido você ficar procurando e encontrando todas elas. Não tem como negar que ver Batman, Arlequina, Coringa, Freddy Krueger, Jason, Chuck, Deadpool, King Kong, Gigante de Ferro e companhia no mesmo filme é fantástico. O filme é uma ode a cultura pop. Amantes de games, filmes e músicas ficaram encantados com tantas referências. O longa a todo momento se permite brincar com as referências, divertindo do início ao fim.

Para entender melhor, o universo do jogo Oasis permite você ser simplesmente qualquer personagem que você queira, por isso tantas referências. Mas o interessante do filme de Steven Spielberg é que as muitas referências não estão simplesmente por estar ali, elas fazem a narrativa do filme caminhar. A referência ao O Iluminado na busca pela segunda chave é simplesmente espetacular. E que bom que nos trailers não apareceu nada de O Iluminado, teria estragado a surpresa. O Iluminado é muito mais que referência, é parte motriz do filme. Simplesmente absurda a recriação feita por Steven Spielberg. Magnifico!

A brincadeira com o avatar de cada personagem é muito bem construída. Na equipe de Parzival tem até criança, o pequeno Sho! Quem nunca jogou on-line com crianças com aqueles avatares robustos que jogue a primeira pedra. Demais! Aliás a química da equipe é ótima, principalmente entre Parzival e Aech, eles conseguem colocar em tela aquela química de amigos que vivem jogando on-line. O interessante do filme é de a principio ter aquele choque entre o avatar e quem está por trás dele, e esse choque existe. Afinal de contas, no mundo de hoje, praticamente todo mundo coloca sempre o seu melhor nas redes sociais, ou seja, no on-line todo mundo é melhor.

O grande destaque de atuação é o criador do jogo interpretado por Mark Raylance. Ele que vem trabalhando com Spielberg nos últimos filmes, se torna impressionante como ele consegue entregar feições tão honestas a seu personagem, sem falar que ele é aquele jogador de vídeo game raiz, que na infância ficava sentado em frente a TV jogando, trancado no quarto. Em todas as cenas que Mark passa, ele entrega um olhar sincero e bondoso, que é capaz de se fazer enxergar a criança que ainda existe dentro dele. Tye Sheridan também merece destaque, pois logo de cara o personagem ganha a nossa simpatia, afinal de contas o cara dirige um DeLorean.

Quanto a direção de Steven Spielberg, o mais correto a se dizer é que ele nasceu para dirigir Jogador Nº 1. O que falar daquela cena inicial de corrida, na qual sua câmera literalmente não para em momento algum. É um Spielberg moderno como a muito tempo não se via. Pode-se até dizer que ele não explorou muito, por exemplo, a relação dos amigos Halliday e Ogde (Simon Pegg). Talvez tenha sido até proposital. Spielberg faz um filme em que deixa o espectador pensar, completando essas lacunas, para que ele fique focado na diversão do filme.

Um filme que faz você sair feliz de dentro do cinema, e mais, um filme para ser visto no cinema. E ao final ainda consegue passar uma mensagem, ao reconhecer os problemas dessa realidade virtual, dessa super imersão que tanto vivemos.

Ready Player One, 2018. Direção: Steven Spielberg. Com: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, Lena Waithe, T. J. Miller, Simon Pegg, Mark Raylance, Philipe Zhao, Win Morisaki. 140 Min. Ação.

Cinema: Com Amor, Simon

Com Amor, Simon é um filme mainstream adolescente de estilo convencional que usa todos os clichês do livro no qual ele foi adaptado. Há o vice-diretor nerd, a festa bacana da escola secundária, os pais solidários mas um pouco sem noção, as vozes espirituosas do protagonista, as declarações públicas de amor em frente a toda a escola, todas mantidas juntas por um fluxo de músicas pop cativantes. Mas o uso desses clichês em Com Amor, Simon, representa um ineditismo, porque é a história de uma difícil e muitas vezes divertida marcha de jovens gays para “sair do armário”.

O diretor Greg Berlanti, que dirigiu uma série de programas de sucesso como produtor e roteirista, usa o familiar romance adolescente para contar uma história LGBTQ e, ao fazê-lo, faz com que esses clichês se sintam novos, divertidos e inteligentes. Baseado no romance “Simon Vs. A Agenda Homo Sapiens”, Com Amor, Simon é um ato radicalmente inclusivo.

Como Simon (Nick Robinson) nos diz em sua voz de abertura, ele vive uma vida normal “assim como você”. Ele mora em uma bela casa, tem dois pais de apoio (Jennifer Garner e Josh Duhamel) e uma jovem irmã obcecada com “Top Chef” (Talitha Eliana Bateman). Ele é um bom aluno e participa do Drama Club. Seus melhores amigos são Leah (Katherine Langford ), Nick (Jorge Lendeborg Jr) e Abby ( Alexandra Shipp). Nada está errado, exceto, como Simon diz na narração: “Eu tenho um grande segredo”. Seu segredo é que ele é gay. Ele tem certeza que seus pais ficariam bem com isso e seus amigos também estariam bem. Ele tem medo, de como isso vai mudar tudo, como as pessoas podem percebê-lo de forma diferente. Ele também se ressente de ter que “sair do armário” (o que leva a uma sequência muito engraçada imaginando crianças heterossexuais “saindo do armário”). Por que sou “fora do padrão”, ele pergunta.

Quando alguém com o pseudônimo “Blue” escreve um post em um quadro de mensagens local popular sobre ter medo de ser gay, Simon vai até ele em particular, usando o pseudônimo “Jacques”. Os dois começam uma correspondência, hesitantes no início e depois aumentando de intensidade. A identidade de “Blue” é o grande gancho de Com Amor, Simon, e Berlanti tem muita diversão nos mantendo em suspense. Há muitos candidatos em potencial, e Simon vai de um para o outro, perguntando: “Você é Blue?” Pode ser qualquer um deles. Um dos aspectos mais bonitos de Com Amor, Simon é que a intimidade que floresce entre os dois personagens é baseada no quanto eles se preocupam um com o outro, o quanto eles apoiam a jornada um do outro.

As coisas ficam estranhas quando Martin (Logan Miller), membro do Drama Club, entra em cena. Ele descobre sobre a correspondência secreta de Simon e chantageia Simon para ajudá-lo a conseguir um encontro com Abby, que não quer nada com ele. Simon se torna um marionetista oculto e relutante da paisagem extremamente mutável de vários romances do ensino médio envolvendo Leah, Nick e Abby, pessoas que deveriam ser seus melhores amigos. Suas manipulações levam a uma enorme confusão, sentimentos feridos, caos emocional, com Simon racionalizando tudo para si mesmo, fazendo o que ele tem que fazer para proteger a identidade de Blue. Se Martin revela a correspondência para a escola, como ele ameaça fazer, então Blue será afugentado para sempre. As apostas não poderiam ser maiores.

Berlanti, que também dirigiu Dawson’s Creek e Riverdale, conhece muito bem esse território adolescente. Ele entende as neuroses adolescentes, e se preocupa com a experiência adolescente, suas intensidades, suas profundezas, quão importante é o romance para os adolescentes envolvidos nisso. Há uma cena em que Lea compartilha com Simon como ela sempre se sente como se estivesse do lado de fora olhando para dentro. Ela diz, em uma das muitas linhas maravilhosas do filme, “Eu sou o tipo de pessoa destinada a se importar tanto com uma pessoa”. Isso quase me mata. ” É assim que adolescentes inteligentes e sensíveis falam. As Roteiristas Elizabeth Berger e Isaac Aptaker (cujos créditos compartilhados incluem This Is Us e About a Boy) tem um ótimo ouvido para os ritmos ondulantes da comédia. Com Amor, Simon é cheio de humor – em seus personagens, diálogos e situações – mas não sacrifica a profundidade emocional. Os dois trabalham em conjunto.

Historicamente, as histórias de “sair do armário” nos filmes envolveram seus próprios tipos de clichês: tormento, tragédia, raiva dos pais/sociedade, medo às vezes até da morte. Tais filmes sublinham os perigos de viver em um mundo homofóbico, de estar “fora do armário” em uma atmosfera não apenas hostil, mas mortal. Essas histórias também são importantes e foram avanços na representação. Mas em filmes mainstream, que são exibidos nos multiplex, os personagens gays ainda são, com mais frequência, parceiros para os protagonistas héteros. Filmes recentes como Me Chame Pelo Seu Nome e O Azul é a Cor Mais Quente mostram personagens que não são punidos por sua sexualidade pelo mundo, seus pais, seus colegas. Esses filmes são enormes passos à frente, mas Com Amor, Simon cumpre outro papel – ser um filme mainstream para adolescentes.

Eu não vi o filme em uma sessão de imprensa cercada por críticos. Fui a um cinema de bairro e a empolgação quando as luzes se apagaram era palpável. Não notei nenhuma verificação sub-reptícia de celulares durante o filme, apenas uma energia de engajamento completo. As pessoas falavam de volta para a tela ou ofegavam em compaixão ou uivavam de tanto rir. Quando a paixão anônima de Simon finalmente revelou sua identidade, o público explodiu em gritos e aplausos. Havia uma sensação de liberação catártica na sala de cinema, única na minha experiência.

Em uma cena comovente, a mãe de Simon diz para ele: “Você pode expirar agora, Simon”. Foi o que eu senti na exibição de Com Amor, Simon, e é isso que o filme é: uma expiração há muito esperada.

Love Simon, 2018. Direção: Greg Berlanti. Com: Nick Robinso, Jennifer Garner, Josh Duhamel, Katherine Langford, Alexandra Shipp, Logan Miller, Keiynan Lonsdale, Jorge Lendeborg Jr. 110 Min. Drama.

Cinema: Operação Red Sparrow

Filmes de espionagem possuem certo charme por ter elementos que instigam o público a se sentir atraído pela história. Além do dever de ter boas cenas de ação, é importantíssimo que um filme de espionagem possua uma linha narrativa interessante. Infelizmente todos os elementos importantes não são vistos na nova parceria entre Frances Lawrence e Jennifer Lawrence em Operação Red Sparrow.

Jennifer Lawrence interpreta Dominika Egorova, uma bailarina do ballet Bolshoi que quebra a perna durante uma apresentação. Devido ao acidente, ela abandona a carreira, o que a faz perder os benefícios que o ballet a proporcionava e também a ajuda com a mãe doente. Dominika então recebe um convite do seu tio, um membro do governo russo, para integrar o programa Sparrow, no qual as pessoas são treinadas para usar as artimanhas da sexualidade para obter tudo o que quer.

O filme até tem pontos e cenas interessantes, porém o longa peca em direção e roteiro. A direção preguiçosa de Frances Lawrence fracassa ao criar uma trama confusa que faz o público perder totalmente o interesse pela história. O roteiro de Justin Haythe é pobre, repleto de clichês que não funciona. Ao longo de seus 140 minutos, o que percebemos é que o filme tem muitas cenas desnecessárias, principalmente o treinamento que a personagem de Jennifer Lawrence passa. Um treinamento que ela não termina, e que não utiliza muito do que aprendeu quando está tentando obter alguma informação. O filme poderia ter tirado 40 minutos fáceis em sua ilha de edição, talvez tivesse até melhorado o resultado final do longa.

A intenção que fica ao término do filme, é que ele quis se apoiar puro e simplesmente na beleza de Jennifer Lawrence. A atriz faz até cenas de nudez e de sexo, mas não convence como um russa, apresentando um sotaque falso quando fala o idioma. Jennifer inclusive parece apática em quase todo o filme, com uma atuação estranha. Se você comparar com Atômica, que saiu ano passado, aí é que você percebe como Operação Red Sparrow é fraco.

O filme acerta nas cenas de ação, quando Jennifer Lawrence está em sua primeira missão, e uma sequência perto do fim do filme. Pouco, para um filme que gerou muito mais expectativa.

O design de produção do filme é um pouco estranho. O filme se passa nos dias atuais, porém quer lembrar aquele clima de Guerra Fria entre Estados Unidos e Rússia. Ainda existe outra coisa que incomoda, um detalhe: no meio de tantos veículos atuais e notebooks, utilizar disquetes como elemento de busca da personagem principal, fica deslocado. Não se sabe o que a direção de arte e o diretor Frances Lawrence quis dizer com isso, mas ficou estranho. Destoante.

No fim, o sentimento que fica é que faltou algo ao filme. No papel parecia todo perfeito, porém na prática, Operação Red Sparrow deixa a desejar em quase tudo.

Red Sparrow, 2018. Direção: Frances Lawrence. Com: Jennifer Lawrence, Joel Edgerton, Matthias Schoenaerts, Charlotte Rampling, Mary-Louise Parker, Ciarán Hinds, Jeremy Irons, Douglas Hodge. 140 Min. Ação.

Cinema: Eu, Tonya

A geração de hoje em dia pouco ouviu falar da patinadora Tonya Harding. Talentosa, Tonya viu sua difícil carreira tomar rumos problemáticos a mais de vinte anos atrás, pouco antes das Olimpíadas de Inverno de 1994, quando foi acusada de mandar quebrar a perna de sua principal rival.

Margot Robbie que interpreta Tonya Harding comprou os direitos da história que há muito tempo estava esquecida em Hollywood e produziu a história. Acompanhamos Tonya desde os seus primeiros passos na patinação, logo com 3 anos de idade, até culminar no envolvimento do crime, quando a atleta tinha 23 anos. Durante esse tempo, Tonya viveu além do esporte, uma infância e adolescência marcada por abusos, o que deixou marcas na sua personalidade.

Empurrada pela mãe para o ringue de patinação, o esporte foi a única coisa que Tonya sabia fazer na vida. Sem os estudos terminados, mas com um talento enorme, ela foi a primeira patinadora na história a fazer o Axel Triplo, um salto composto por três giros no ar seguido de pisar no gelo já patinando e com os braços abertos. Porém, Tonya não se “encaixava” nos “padrões” que os americanos queriam como representante de seu país no esporte.

Tonya vinha de família pobre, além de ter sido abandonada pelo pai e de sofrer abuso da mãe LaVona Golden (Allison Janney). Quando arranjou um marido, Tonya também era espancada por ele. O foco do filme é no abuso. Tudo isso formou uma mulher de personalidade forte, que não conhecia a felicidade fora dos ringues de patinação. Após uma saída do esporte, ela vê a chance de retornar nas Olimpíadas, porém seus resultados não são bons, e o seu ex-marido que, depois se torna marido de novo, acaba tentando tirar sua concorrente da disputa.

A grande sacada do diretor Craig Gillespie foi desenvolver uma narrativa bastante envolvente com o telespectador. O filme tem um jeito de documentário, sem ser. Craig refaz entrevistas da época, sem trazer imagens antigas, a mesma coisa ele faz com algumas cenas do filme. Se você for atrás de vídeos sobre Tonya Harding, poderá ver como ele foi fiel em coisas simples.

Craig Gillespie também merece destaque nas cenas de patinação. Nessas cenas o trabalho de montagem e fotografia é absurdo de tão perfeito. A câmera patina junto com o que acontece em cena. O movimento de câmera é perfeito ao focar os pés na parte onde a dublê de Margot Robbie atua e a combinação é perfeita ao mostrar a parte de cima do corpo na pirueta final já sendo de Margot.

Outra coisa genial no filme é a quebra da quarta parede (quando os personagens conversam com o público). Aqui vemos várias versões para o ataque a rival de Tonya, com cada personagem dando sua versão. E o fato da quarta parede ser quebrada, deixa o filme mais pessoal, mais próximo da gente. A única coisa que o filme não acerta, é quando a maquiagem tenta deixar Margot Robbie mais jovem. Ela que já é jovem, fica é mais envelhecida ao invés de se parecer com uma menina de 14, 15 anos. Por outro lado, a maquiagem acerta quando precisa deixar Margot Robbie com mais de 40 anos.

Margot Robbie está sensacional. Um personagem complexo, cheio de feridas e que foi composto de forma brilhante pela atriz. Até agora é o papel da vida dela. Agora Allison Janney está simplesmente soberba. Repleta de sarcasmo e humor negro a personagem é o reflexo de quem não está nem aí para a vida. O que refletiu na infância de Tonya, e o fato de não mostrar nenhum pingo de arrependimento deixa a personagem mais fantástica ainda devido a frieza que ela entrega.

Em um determinado momento do filme, Tonya chega para os juízes e pergunta o que falta para ela conseguir notas melhores, já que as notas não condizem com a sua apresentação. É essa mesma pergunta que deveria ter sido feita para os votantes da Acadêmia. O que faltou para Eu, Tonya conseguir mais indicações ao Oscar?

I, Tonya, 2017. Direção: Craig Gillespie. Com: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson, Paul Walter Hauser. 120 Min. Drama.

Cinema: Trama Fantasma

Paul Thomas Anderson é conhecido por apresentar filmes complexos, daqueles em que ou você ama, ou você odeia. Obras como Magnólia, Sangue Negro e Embriagado de Amor mostram a qualidade e o cineasta diferenciado que ele é. Aqui em Trama Fantasma ele entrega um filme simples, e esse é o maior problema de seu novo trabalho.

Em Trama Fantasma acompanhamos a história do estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis). Obcecado pelo seu trabalho, ele é famoso por criar vestidos para pessoas da mais alta sociedade. Em um belo dia, ele conhece Alma (Vicky Krieps) e ela se torna sua musa, perfeita para servir como modelo de seus vestidos.

O grande pecado de Trama Fantasma é não aprofundar a sua história. O roteiro, apesar de certa forma ser misterioso, é raso. A todo momento parece que algo vai acontecer, mas o filme continua parado. A impressão que dá, é que Paul Thomas Anderson escreveu o roteiro com preguiça. O único conflito que acontece é quando Alma se apaixona por Reynolds, mas a forma com que esse amor acontece e o rumo que toma são poucos para um filme de mais de duas horas de projeção.

Outro erro do roteiro é não aprofundar seus personagens. Tudo acontece de maneira muito rápida. Reynolds está em uma cafeteria, Alma vem para atendê-lo, ele a observa e já a chama para sair. E do nada ela já está morando na casa dele. O passado dela em nenhum momento é mostrado, assim como ficamos sabendo pouca coisa do passado de Reynolds.

Daniel Day-Lewis entrega mais uma vez uma atuação magnifica, e de longe é a melhor coisa do filme. Seus olhares falam mais do que palavras. Toda a forma de se portar de um estilista, ele entrega muito bem. Vicky Krieps está muito bem nas cenas ao lado de Day-Lewis. E quem merece destaque também é Lesley Manville, que interpreta a misteriosa Cyril, irmã do personagem de Day-Lewis.

Paul Thomas Anderson mais uma vez entrega um filme tecnicamente perfeito. Sua estética audiovisual sempre é acima da média. A fotografia explora bem os planos detalhes, seja em closes nos personagens, seja na simples costura onde uma agulha perfura um tecido. O som é muito bem trabalhado pelo diretor. Na cena do café da manhã, ele eleva o som dos elementos que compõe a cena para nos incomodar e fazer nos sentir como o personagem de Reynolds.

A trilha sonora é linda, porém um pouco estranha. O filme todo tem uma atmosfera de mistério e, como falei mais acima, a todo o momento você fica esperando algo aparecer. A trilha poderia acompanhar esse estilo do filme, porém ela é leve e parece desencaixada da obra criada por Paul Thomas Anderson.

Esteticamente perfeito, porém com um roteiro que não evolui os personagens. É complicado nos afeiçoar aos personagens de Trama Fantasma com uma história tão rasa em que praticamente nada acontece.

Phantom Thread, 2017. Direção: Paul Thomas Anderson. Com: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville, Sue Clark, Joan Brown, Harriet Leitch. 130 Min. Drama.