Cinema: Mãe!

Darren Aronofsky é daqueles diretores que quando despontam em Hollywood chamam muita atenção. Da mesma geração de M. Night Shyamalan, Darren chamou a atenção logo em sua estreia com o seu estilo de filmagem em Pi. Em seguida realizou um de seus melhores filmes, Requiem Para um Sonho. Passando por Fonte da Vida e O Lutador, o diretor chegou ao ápice com Cisne Negro, filme que rendeu o Oscar de Melhor Atriz para Natalie Portman. Noé, no entanto, dividiu muito a opinião das pessoas, aliás, dividir a opinião das pessoas é uma das marcas das obras de Aronofsky.

Aqui em Mãe!, Darren conta a história de uma jovem esposa (Jennifer Lawrence) que passa seus dias restaurando a enorme casa que vive com seu marido (Javier Bardem), um escritor que tenta reencontrar a inspiração para voltar a escrever poemas. Os dias calmos e tranquilos ficam diferentes quando estranhos começam a chegar a casa e o marido os deixa ficarem, mesmo com a rejeição da esposa.

O tom de mistério que reina nos trabalhos de Aronofsky já começa nos nomes dos personagens. Seus personagens não possuem nomes próprios. Javier Bardem é Ele e Jennifer Lawrence é Mãe, Ed Harris é Homem e Michelle Pfeiffer é Mulher. Dito isso já podemos imaginar que adentraremos em um enorme quebra-cabeça recheado de metáforas e referências que exigirá muita atenção por parte do público para o entendimento (ou não) do filme.

A personagem de Jennifer Lawrence interpreta uma mulher à moda antiga. Muito ligada a casa, ela passa seus dias se dedicando a ela e ao marido. Uma mulher submissa a ele, que não tem muita voz para dar opiniões. Isso fica nítido quando desconhecidos chegam a casa e contra a sua vontade, o marido permite eles ficarem.

Javier Bardem é um escritor que vive uma crise na sua escrita. Fez muito sucesso no passado, porém, há anos não consegue escrever nada. A chegada dos desconhecidos em sua residência e um acontecimento na vida do casal vai aos poucos fazendo a sua inspiração voltar.

Em nenhum momento Darren Aronofsky vai dando respostas. O filme inteiro é um emaranhado de informações que faz o público se perguntar muitas vezes, “o que está acontecendo?”. É muito complicado falar sobre Mãe! sem entrar nos spoilers. Porém, é importante falar que o filme vai levando a sua história para uma situação insustentável. O que começa com um estranho chegando, termina com a casa habitada por dezenas de estranhos. O que pode gerar uma sensação de incômodo no espectador, por se compadecer com a personagem Mãe.

Aronofsky vai utilizando mistério e códigos para contar uma história simples. É como se o diretor brincasse de um jogo de adivinhação com o seu público. As metáforas são importantes, porém, nem tão simples de ser respondidas. O maior mérito de Darren é fazer seu filme continuar após a sessão. Amando ou odiando o filme, é impossível você não sair conversando, discutindo e debatendo sobre o filme.

Jennifer Lawrence entrega a sua melhor interpretação na carreira, principalmente na parte final do filme. Sua incrível interpretação já é forte candidata a estar concorrendo ao Oscar de Melhor Atriz, tamanha a sua dedicação e perfeição. Javier Bardem está impecável como sempre. E consegue empregar feições que são muito importantes em cena, principalmente para um filme que tem sua história contada com a ausência de trilha sonora. Aqui o silêncio é muito importante e Darren Aronofsky trabalha muito bem o silêncio.

O longa pode fazer você ter diversos entendimentos. Os enigmas de Aronofsky seriam ligados a uma história sobre fama, bíblica ou sobre a mente humana mergulhada em uma depressão? Mãe! é um filme que precisa ser descoberto para que você possa tirar as suas próprias conclusões.

Mother! 2017. Direção: Darren Aronofsky. Com: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson. 121 Min. Drama.

Anúncios

Cinema: It – A Coisa

Chega aos Cinemas It: A Coisa, uma readaptação do excelente livro de Stephen King. Digo readaptação porque o livro já virou um filme para a televisão em 1990 em It: Uma Obra Prima do Medo. Porém, nesse novo longa, um tratamento mais cuidadoso a toda obra de King marca a qualidade do filme.

Na trama, crianças começam a desaparecer na cidade de Derry. Um deles é irmão de Bill, Georgie. Bill mais seis amigos começam uma busca para tentar encontrar o responsável pelos desaparecimentos, e acabam descobrindo que a cada 27 anos coisas estranhas acontecem na cidade. Enquanto isso, eles sofrem com uma ameaça, o palhaço Pennywise que os amedrontam tocando muito fundo nos seus medos mais escondidos. E que ele pode ser o responsável pelos desaparecimentos.

A obra de Stephen King possui aproximadamente 1000 páginas. Enquanto o filme de 1990 contou toda a história em um longa de três horas de duração, aqui nesta readaptação de 2017, apenas a primeira parte do livro, focada nas crianças, foi contada. Ficando a segunda parte do livro, com essas mesmas crianças já adultas, para um segundo filme. Isso foi fundamental para contar a história com mais detalhes, aprofundando o drama de cada personagem.

Dirigido por Andy Muschietti, do bom Mama, o diretor tem a árdua tarefa de mostrar muita coisa em 135 minutos de filme. Mostrar o convívio de sete crianças com suas respectivas famílias, abordar seus medos, desenvolver o palhaço Pennywise, criar conflitos e ainda deixar espaço para um pequeno desenvolvimento romântico. Felizmente, o diretor conseguiu cumprir com méritos todos esses desafios.

Stephen King sempre gostou de mostrar em suas obras aquele grupo de minorias que juntos são mais fortes. Conta Comigo é clássico e tem em sua essência essa característica. Aqui ele faz mais e consegue reunir no grupo de crianças uma que sofre de gagueira, um asmático, um negro, um judeu, um gordinho e uma garota que sofre abusos do pai. O diretor Andy Muschietti consegue trabalhar cada um deles de maneira muito sútil, mostrando as relações familiares e nos fazendo entender de maneira fácil seus medos e seus anseios.

O diretor consegue mesclar muito bem momentos de terror e frases hilárias de maneira a não fazer o filme perder a tensão. Sem medo de chocar o público, Andy mostra cenas chocantes como membros sendo arrancados, violência contra crianças, bullying, abuso infantil. Tudo com muito cuidado e na medida certa. O diretor consegue trabalhar bem com os cenários. Cenas como quando Bill vê seu irmão no porão, a assustadora cena do banheiro com Beverly que lembra muito Carrie, a Estranha e o ápice final, dentre muitas outras cenas, mostram a qualidade de todo o trabalho do diretor.

O elenco infantil foi muito bem escolhido e dirigido. Personagens carismáticos, com destaque para Sophia Lillis que interpreta Beverly demonstrando ser a mais talentosa do grupo, com um olhar que consegue demonstrar muitos sentimentos. Seu personagem possui um trabalho muito bem feito mostrando o seu lado feminino e suas descobertas. Jack Dylan, que faz Eddie, mostra toda histeria e exagero que o personagem possui, também está ótimo. E para os fãs de Stranger Things, ainda temos Finn Wolfhard, o alívio cômico do grupo e, diga-se de passagem, um alívio cômico que funciona muito bem.

Agora abrimos espaço para falar da alma do filme. Sem sombra de dúvidas o longa não seria o mesmo sem Bill Skarsgard e seu Pennywise. O palhaço dançarino prefere fazer suas vítimas sofrerem de maneira psicológica ao invés de simplesmente matá-las. Pennywise é malvado, perverso, cruel, DOENTIO. Skarsgard consegue transparecer tudo isso em uma atuação impressionante. Algumas pessoas não conseguem ver suas cenas, de tão DOENTIO que ele está. O ator surpreende e entrega um dos maiores vilões em filmes de terror da história. Se muitos se impressionavam com o Pennywise de Tim Curry no filme antigo, este de Bill Skarsgard vem para ser o Pennywise definitivo. Com frases desafiadoras para quem entra em seu caminho como “Eu não sou real o suficiente para você?”, o ator consegue encarnar realmente o verdadeiro medo. Aliás, o filme consegue demonstrar muito bem como Pennywise fica mais forte. Quanto mais medo e inocência das crianças, mais forte o palhaço dançarino fica.

Este novo filme poderia facilmente ser enquadrado em um longa dos anos 80. Não digo em suas características, pois essas são dos anos 80. Digo na alma do filme. O sentimento de amizade, companheirismo, aventura, e união perpetua por todo o filme. It: A Coisa é um filme gostoso de assistir e esse clima oitentista colabora com isso. A fotografia do filme é um primor de tão linda que está, soube aproveitar bem a época que foi retratada e o resultado é fantástico.

Outra coisa perfeita no filme é o design de produção. Não seria exagero se o filme aparecesse entre os indicados ao Oscar nessa categoria. A criação da casa antiga e abandonada que as crianças entram em uma das partes do filme é um verdadeiro capricho. O fato de nós, espectador, não conhecer a casa, nos coloca no mesmo ponto das crianças. Cada espaço adentrado é uma surpresa. A persona de Pennywise tem um figurino e maquiagem perfeitos. O trabalho de produção é tão bacana e cuidadoso no filme, que podemos observar em cenas simples, onde as crianças andam na rua, filmes como Batman e A Hora do Pesadelo 5 que estavam em cartaz no cinema da cidade. Filmes que realmente foram lançados na época em que a história se passa.

O longa aproveita para reverenciar diversas obras de Stephen King que também perpetuam na cultura pop nos dias de hoje. É possível pegar referências de Conta Comigo, Carrie, a Estranha, Christine: O Carro Assassino, filmes baseados na obra do escritor, e também lembrar de Stranger Things, sendo que esta já referencia tantos filmes dos anos 80.

It: A Coisa é audacioso ao confirmar já no seu próprio final, a parte dois do filme. As crianças fizeram sua parte, agora é torcer para que a continuação que deve chegar em 2019 aos cinemas, mostrando essas crianças 27 anos mais velhas, seja tão excelente como a primeira parte.

 

 

 

It, 2017. Direção: Andy Muschietti. Com: Bill Skarsgard, Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Nicholas Hamilton, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert. 135 Min. Terror.

Cinema: Bingo – O Rei das Manhãs

“Alô criançada, o Bozo chegou! Trazendo alegria pra você e o vovô!”. Bozo chegou aos cinemas, mas virou Bingo. A cinebiografia de uma das pessoas que encarnaram o palhaço apresentador de programa infantil na década de 80 é a estreia do montador Daniel Rezende como diretor.

Bingo: O Rei das Manhãs conta a história de Arlindo Barreto que viveu o auge da carreira como o palhaço Bozo. Antes, ator de pornochanchadas, Arlindo tenta subir de patamar na carreira artística. Ao ir a um teste para uma novela, ele percebe que também estavam testando um palhaço que apresentaria um programa infantil. E é aí que a sua carreira decola e muda por completo.

Devido a direitos autorais, vale ressaltar que algumas coisas no longa tiveram que mudar de nome. Arlindo Barreto virou Augusto, Bozo virou Bingo, Globo virou Mundial, SBT virou TVP e Xuxa virou Lulu.

O filme não demora muito a nos mostrar que Augusto tem uma personalidade forte. Logo quando encarna o palhaço, ele mostra relutância a seguir o roteiro americano do programa, pois Bingo é exportado dos Estados Unidos. Devido a baixa audiência no início, ele logo começa a improvisar, o que faz o programa virar sucesso e líder de audiência. Mas uma cláusula no contrato o impede de revelar a sua identidade, o que acaba o frustrando.

Um dos maiores acertos do longa é o roteiro de Luiz Bolognesi e a direção de Daniel Rezende. O filme equilibra muito bem a glória e o fundo do poço, mostrando gradativamente cada fase. Seja por meio das drogas, da bebida ou do sexo, Augusto vai se deteriorando por todos os lados.

O roteiro excelente mostra um contraste entre o palhaço querido por todas as crianças do país, enquanto o seu intérprete é um pai ausente. Isso gera uma das melhores cenas do filme, quando Bingo recebe no seu programa uma ligação do seu filho.

Daniel Rezende trabalha muito bem os closes nos personagens além de conseguir filmar cenas perfeitas, como uma quando Augusto percebe que perdeu o papel de Bingo e ele deixa o estúdio. Nessa hora a câmera vira e as luzes se apagam enquanto ele anda. Perfeito. Em algumas cenas é possível ver certa inspiração em filmes como Birdman e O Mentiroso, e isso só vem a ressaltar cada vez mais a qualidade do longa.

Vladimir Brichta não era a primeira escolha para Bingo. Devido a conflitos de agenda, Wagner Moura que viveria o palhaço acabou indicando Vladimir, e a escolha não poderia ser melhor. Brichta ENCARNA a persona de Bingo como ninguém. Ele nos entrega um personagem com uma mistura de loucura e anarquia, o que era a cara dos anos 80. Em um mundo politicamente correto nos dias de hoje, ver um palhaço apresentador de programa infantil falando palavrões no ar e se esfregando, literalmente, na personagem de Gretchen é muita anarquia. A atuação de Vladimir Brichta é tão perfeita que em alguns momentos é impossível você não lembrar de Heath Ledger como o Coringa. Não estou comparando os dois, estou falando que ele nos faz lembrar e isso é um ponto muito positivo. É aí que percebemos como ele se entregou para o papel.

O longa conta ainda com o talento de Leandra Leal, sempre linda e competente, aqui ela encarna a diretora do programa de Bingo. Destaque também para Cauã Martins que faz Gabriel, o filho de Augusto. O garoto consegue emocionar no momento certo. Também temos a participação de Domingos Montagner que interpretou um palhaço com o qual Augusto faz um laboratório para aprender mais sobre como deve ser um palhaço.

A trilha sonora é um caso a parte. Os temas passeiam desde clássicos do rock nacional como Televisão, dos Titãs, até chegar a uma cena antológica de um dos encerramentos do programa de Bingo com Serão Extra, e aquele refrão “Eu fui dar mamãe… (foi dar mamãe)” com aquele palco repleto de crianças pulando animadas. As trilhas incidentais ainda conseguem ser melhores, pois retratam perfeitamente cada momento da vida de Augusto, e você vai percebendo sua vida mudando conforme a trilha muda de tom.

Bingo: O Rei das Manhãs já consegue um lugar entre um dos melhores filmes nacionais da década. É uma cinebiografia com qualidade, um filme que nos deixa com vontade de descobrir cada vez mais sobre o personagem. Um acerto e tanto para o Cinema Nacional.

 

 

 

Bingo: O Rei das Manhãs, 2017. Direção: Daniel Rezende. Com: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Soren Hellerup, Emanuelle Araújo, Pedro Bial, Cauã Martins, Domingos Montagner, Tainá Müller. 113 Min. Drama.

Cinema: A Torre Negra

Há mais de quatro décadas que as obras do escritor Stephen King ganham vida em Hollywood. Algumas vezes bem produzidas e de qualidade como À Espera de Um Milagre, Um Sonho de Liberdade, O Iluminado, e outras bem regulares, como O Apanhador de Sonhos e Sonâmbulos. E agora é a vez de A Torre Negra chegar aos cinemas, 35 anos depois do primeiro livro O Pistoleiro ser escrito.

O longa aborda a história do jovem Jake, garoto que mora com a mãe e o padrasto. Seus sonhos mostram um universo paralelo, onde um feiticeiro denominado O Homem de Preto tenta destruir a Torre Negra, a única fonte que ainda mantém o universo a salvo. Os sonhos também mostram um Pistoleiro, o único capaz de proteger a Torre.

O filme tem um problema sério de roteiro. Não adianta listar aqui as mudanças de livro para filme, porque são muitas. Mas é importante destacar que a essência da história criada por Stephen King foi deixada para trás. O filme não se preocupa em ambientar melhor o público na história, respondendo e explicando melhor elementos que são mostrados. O que a Torre possui que é capaz de proteger o universo? Porque o Pistoleiro é o único que pode protegê-la? Quem é o Rei Rubro? E isso só para citar algumas coisas.

Imagine uma pessoa que nunca assistiu a saga O Senhor dos Anéis. Essa pessoa decide começar assistindo a saga pelo filme As Duas Torres. Essa mesma pessoa ficaria se perguntando algumas coisas, em busca de respostas sobre como cada personagem chegou naquele ponto da história. É essa mesma sensação que A Torre Negra passa. Parece que estamos assistindo uma continuação, porque o filme nos deixa perdido com algumas coisas.

Apesar da falta de respostas, o filme se segura nos seus dois primeiros atos. Mas quando chega ao final, o longa desanda de vez. O clímax final deixa a desejar em todos os momentos. O filme nos da a impressão que o embate final entre o Homem de preto e o Pistoleiro poderia ser algo épico, mas o que vemos em tela é um final recheado de clichês baratos e decepcionantes, que nos faz lembrar até de uma certa cena em Freddy x Jason.

Idris Elba que interpreta o Pistoleiro e o garoto Tom Taylor que interpreta Jake são pontos positivos que acabam se salvando no filme. Matthew McConaughey está totalmente deslocado no papel de O Homem de Preto. O talentoso ator entrega aqui uma atuação um tanto quanto canastrona. O diretor Nikolaj Arcel faz um trabalho totalmente equivocado, é notável que ficou faltando um diretor experiente para levar uma saga tão cultuada quanto A Torre Negra para os Cinemas. Vale lembrar que o roteiro foi escrito por quatro pessoas, o que pode ter ocasionado essas decisões erradas por toda a história do filme.

De bom, o filme apresenta um visual interessante ao tentar fazer uma mistura de faroeste, em um dos mundos paralelos, com a sociedade atual no nosso mundo como o conhecemos. E a trilha sonora também se amarra bem à história que se propôs.

Existem planos para uma sequência no Cinema e também para que o livro vire uma série de televisão. Caso tudo isso se confirme, é bom que muita coisa seja repensada e alterada. Seguir mais de perto o livro de King é um caminho que deve ser tomado.

 

 

 

The Dark Tower, 2017. Direção: Nikolaj Arcel. Com: Matthew McConaughey, Idris Elba, Tom Taylor, Dennis Haysbert, Claudia Kim, Jackie Earle Haley, Abbey Lee, Fran Kranz. 95 Min. Ação.

Cinema: Annabelle 2 – A Criação do Mal

Annabelle nasceu para o cinema em 2013, ao aparecer na introdução de Invocação do Mal. Devido ao sucesso do filme, ganhou rapidamente um spin-off, lançado já em 2014. Um ano separou a criação de roteiro, gravação, edição e lançamento do filme, talvez isso seja a resposta para um filme tão abaixo da média que foi o Annabelle de 2014. Um longa que apresenta apenas sustos bobos e não cria em momento algum um clima de terror em torno da história.

Três anos se passaram entre o primeiro e esta sequência que chega aos cinemas. Três anos que fizeram muito bem ao produto que é Annabelle. Um longa superior em todos os quesitos ao seu antecessor. Annabelle 2: A Criação do Mal se passa antes do primeiro, e conta a história do casal Samuel Mullins (Anthony LaPaglia) e Esther Mullins (Miranda Otto) que perdem de maneira inesperada a sua filha. Alguns anos depois, eles passam a receber crianças órfãs em sua casa, por caridade, para preencher o vazio deixado pela filha. Aos poucos, segredos vão sendo descobertos pelas crianças, e elas precisaram lidar com Annabelle.

O grande acerto do diretor David F. Sandberg (roteirista e diretor de Quando as Luzes se Apagam) é conseguir criar um clima de tensão e horror durante todo o longa. As cenas são bem elaboradas e ele consegue equilibrar muito bem os momentos em que deve causar o susto e causar o terror. De todos os momentos assustadores do longa, apenas em dois eu acho que o diretor passou do ponto, mas nada que prejudique o filme.

Apesar do elenco ter nomes experientes como Anthony LaPaglia e Miranda Otto, a força do elenco está nas meninas órfãs, em especial Talitha Bateman que vive Janice, e Lulu Wilson que interpreta Linda. Lulu em especial consegue até nos divertir com suas caras de susto, mas nada que atrapalhe o clima do filme.

Outro ponto forte do filme é o design de produção responsável pela criação da casa onde todo o longa se passa. Como o filme é de época, a casa possui todos aqueles elementos antigos que funcionam bem em um filme de terror, junta-se a isso a sabedoria de David F. Sandberg em saber a hora certa de usar a luz a seu favor, e temos como resultado final a casa como personagem, o que é muito importante para um longa com essa proposta.

A trilha sonora também merece destaque, possui elementos que lembram muito filmes de décadas passadas, como produções mais recentes do gênero terror, como O Chamado.

Ah, e uma curiosidade para quem for ver o filme: Uma boneca de pano aparece já no final do filme, esta boneca é a verdadeira Annabelle, que o casal Ed e Lorraine Warren trataram do caso.

Apesar do público e da critica não terem gostado do primeiro filme, o final desta sequência se liga com o filme de 2014. Outro ponto interessante é ver a Freira demoníaca Valak que assombrou Lorraine Warren em Invocação do Mal 2, isso já para nos deixar na vontade de ver The Nun, que deve chegar aos cinemas no ano que vem.

Annabelle 2: A Criação do Mal não entrará para a galeria de clássicos do gênero terror, ainda está longe de ter a qualidade de um dos exemplares de Invocação do Mal, mas pelo menos ganhou um filme digno de ser assistido.

 

 


Annabelle: Creation, 2017. Direção: David F. Sandberg. Com: Anthony LaPaglia, Miranda Otto, Stephanie Sigman, Talitha Eliana Bateman, Lulu Wilson, Samara Lee, Grace Fulton, Philippa Coulthard. 109 Min. Terror.

Links relacionados:
– Annabelle (2014)

Cinema: Doutor Estranho

APERTEM OS CINTOS, O MISTICISMO VOLTOU!

doutor-estranho

Entre as diversas cenas dos 115 minutos de Doutor Estranho capazes de causar surtos de alegria, há uma que é uma joia: a doutora Christine (Rachel McAdams) tem de ressuscitar, sozinha na sala cirúrgica, um paciente em parada cardíaca. Só que o paciente tem a habilidade incomum de separar seu corpo astral de seu corpo físico e, enquanto Christine lida afobada com o desfibrilador, a projeção astral do paciente aproveita para se engalfinhar numa briga de bar com a projeção astral de um vilão. Rola sopapo esotérico para todo lado, alguns tão violentos que dão trancos na desesperada Christine, ou fazem soprar o cabelo dela, ou chacoalhar os equipamentos. Eu não sabia o que fazer primeiro, se roer as unhas ou gargalhar – e descobri que fazer as duas coisas ao mesmo tempo pode não ser fácil, mas é muito compensador. Essa junção de imaginação, ação, efeito, tensão, pastelão e até romance (a ressurreição do paciente é um legítimo gesto de amor por parte de Christine) é dosada com tanta felicidade, e resulta tão embriagante, que só por uma sequência assim um filme já justificaria sua existência.

Doutor Estranho conta a história de Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), um neurocirurgião que leva uma vida bem sucedida, mas as coisas começam a mudar completamente quando ele sofre um acidente de carro e fica com as mãos debilitadas. Devido a falhas da medicina tradicional, ele parte para um lugar inesperado em busca de cura e esperança, um misterioso enclave chamado Kamar-Taj, localizado em Katmandu. Lá descobre que o local não é apenas um centro medicinal, mas também a linha de frente contra forças malignas místicas que desejam destruir nossa realidade. Ele passa a treinar e adquire poderes mágicos, mas precisa decidir se vai voltar para sua vida comum ou defender o mundo.

Doutor Estranho é o décimo quarto filme do Universo Cinematográfico Marvel, tem identidade e personalidade de sobra, mas é bem verdade que possui um roteiro não linear com algumas falhas evidentes. Porém, como já falei acima, Doutor Estranho tem muito a justificar em relação a sua existência: Benedict Cumberbatch é um ator frequentemente muito inspirado, mas aqui tem mais espaço para brincar até do que em Sherlock Holmes – e ele o aproveita tudo, e tira o sumo de cada cena e cada diálogo (o mesmo, aliás, vale para o restante do elenco). Tilda Swinton, esse ser vindo de alguma galáxia ofuscante, me deixou de joelhos como a Anciã (e não venham me dizer que é absurdo trocar um velhinho oriental por uma escocesa de meia-idade, porque absurdo seria não poder trocar o previsível pelo inesperado). O vilão Kaecelius é assim-assim, mas como quem o interpreta é Mads Mikkelsen vou fingir que não percebi; em Mads eu perdoo tudo. E esse clima viajandão é uma delícia: até os personagens parecem meio intoxicados com as coisas lisérgicas que são capazes de fazer (Londres girando como um cubo mágico, e dobrando-se sobre si mesma? Só assim Londres fica melhor do que já é). Nota 10, então, para Scott Derrickson, que faz aqui uma das transições mais elegantes que já vi, do terror de O Exorcismo de Emily Rose e Livrai-nos do Mal para o lado reverso do universo Marvel.

Quer mais encanto? Dentro de Derrickson, aparentemente, vivem também Moe, Larry e Curly, mais o Gordo e o Magro e a trupe inteira do Monty Python. A cena em que a Capa da Levitação escolhe Estranho como seu novo mestre? Brilhante. E ainda não acabou. Há um momento de beleza verdadeira, no qual a Anciã contempla o mundo e constata que qualquer vida, por mais longa que seja, é sempre muito curta (Tilda consegue transformar qualquer lugar-comum em revelação). Cuidado: se você não estiver preparado para sair de uma sessão de cinema em um estado inebriado, ou até eufórico, passe longe de Doutor Estranho.

Nota 9

Doctor Strange, 2016. Direção: Scott Derrickson. Com: Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton, Benjamin Bratt. 115 Min. Ação.

A Grande Beleza

brando

Bons atores e atrizes se constroem em ação. Trata-se de uma arte do fazer. Não é uma atividade intelectual, científica ou espiritual. É uma atividade prática. Uma técnica que se adquire à medida em que os trabalhos vão surgindo e as experiências de vida vão se acumulando. Claro que há atores instantâneos, que já nasceram praticamente prontos. Mas essa é a exceção que confirma a regra. E mesmo os talentos naturais podem ser aperfeiçoados com o tempo. Na maioria dos casos, o bom ator é fruto do tempo. E o mau ator também é fruto do tempo. Só saberemos se um ator ou atriz são bons após alguns anos.

No início, o narcisismo, gêmeo da insegurança, dificulta a boa atuação. A falta de confiança, aliada à vaidade excessiva, e uma descomunal necessidade de aprovação, minam a força do ator. Com o tempo, a tendência é ganhar confiança que, em equilíbrio com a onipresente insegurança de todo artista, transforma potência em ato. A confiança liberta e a insegurança humaniza. Aí o ator começa a ficar interessante. O perigo é quando a confiança se agiganta e a insegurança se camufla num estágio de vaidade agressiva. Estado muito comum quando atores se tornam celebridades. A despeito de uma insegurança sempre presente, o trabalho se torna um pretexto para uma relação narcísica e egocêntrica com o mundo, o que desumaniza até os maiores talentos.

E quando um ator pode ser considerado ruim? Se depois de várias experiências o ator ainda atua mal, aí sim podemos afirmar que é de fato ruim. Porém esta é uma avaliação sempre subjetiva. O que é considerado bom para “A”, pode ser considerado ruim para “B”. E assim sucessivamente. Sem falar nos altos e baixos inerentes à carreira de qualquer ator. Voltamos à estaca zero. Nenhum ator ou atriz jamais saberá se é de fato bom. Nunca haverá certezas. Essa é a grande beleza da arte do ator.

ass_felipe

ass_nayara